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1 Revista Eletr nica de Divulga o Cient fica em L ngua Portuguesa, Ling stica e Literatura Ano 05 - 2 Semestre de 2009- ISSN 1807-5193 ENTRE O DE NTICO E O EPIST MICO: O CAR TER CAMALE NICO DO VERBO MODAL PODER Sueli Costa1 RESUMO: Neste trabalho, eu analiso diferentes possibilidades de uso do verbo poder, partindo das propostas te ricas, de cunho funcional, de Sweetser (1990), Coates (1995), Giv n (2001) e Traugott; Dasher (2005), para os verbos modais. A pesquisa foi baseada na an lise do verbo poder em textos orais e escritos, produzidos por jovens estudantes catarinenses.
2 Tal an lise busca mostrar que, no corpus analisado, diferentemente do que defendem alguns autores, o auxiliar modal em quest o n o tem como caracter stica a ambiguidade, uma vez que ela pode ser resolvida com base no contexto em que utilizado, mas sim a multifuncionalidade. Palavras-chave: modalidade, ambiguidade, multifuncionalidade ABSTRACT: In this work I analyze different possibilities to use poder as a modal verb taking as starting points some functional approaches to modal verbs, such as Sweetser s (1990), Coates (1995), Giv n s (2001) and Traugott; Dasher s (2005).
3 The research was based on the use of poder in oral and written texts produced by young students from Santa Catarina state, Brazil. The analysis intends to show that, considering the analyzed corpus and differently from what some authors defend, poder is not ambiguous, since it is possible to consider the context in which this verb appears. Rather, it is multifunctional. Keywords: modality, ambiguity, multifunctionality Introdu o Quando se trata do estudo do uso dos verbos em uma determinada l ngua, a quest o dos auxiliares modais tem despertado o interesse de muitos pesquisadores de diferentes linhas te ricas.
4 Chamo a aten o, inicialmente, para a quest o conceitual que envolve os termos verbo modal, modo verbal e modalidade. O verbo modal (dever, poder, ter que, ENTRE outros), assim como o modo verbal (indicativo, subjuntivo, imperativo), um dos recursos gramaticais dispon veis para expressar a modalidade em portugu s. A modalidade uma categoria lingu stica mais ampla que codifica a atitude do falante em rela o proposi o (GIV N, 2001, p. 300). Enquanto o modo expresso morfologicamente no verbo, a modalidade envolve o contexto 1 Doutoranda em Ling stica (UFSC/CNPq).
5 Agrade o Prof Dr Edair Maria G rski pelas valiosas contribui es. Revista Eletr nica de Divulga o Cient fica em L ngua Portuguesa, Ling stica e Literatura Ano 05 - 2 Semestre de 2009- ISSN 1807-5193 sem ntico-pragm tico, j que leva em conta a atitude do falante em rela o ao conte do daquilo que enunciado, podendo ser expressa por meio de diferentes mecanismos lingu sticos2. Considero, pois, que a modalidade se manifesta na intera o verbal, para dar conta dos prop sitos comunicativos dos interlocutores, n o se restringindo, como poderia parecer primeira vista, categoria do verbo.
6 Nesse sentido, o contexto imprescind vel no momento de interpretar o quanto de comprometimento h por parte do falante/escrevente em rela o ao que dito/escrito. Numa perspectiva funcional, alguns estudiosos como Sweetser (1990), Coates (1995), Giv n (2001) e Traugott & Dasher (2005) destacam-se na an lise da interpreta o da modalidade em seus aspectos de ntico/avaliativo que envolve valores como desejo, prefer ncia, inten o, obriga o, manipula o, habilidade; e/ou epist mico que envolve valores como verdade, probabilidade, certeza, cren a, evid ncia (GIV N, 2001, p.)
7 300). importante salientar que h quem considere habilidade/capacidade como uma terceira modalidade3. Por essa raz o, na an lise dos dados efetuada adiante, a modalidade de ntica ser subcategorizada como capacidade/habilidade e permiss o/obriga o . De acordo com alguns autores (Sweetser, por exemplo), os verbos modais s o considerados amb guos, pois ora est o relacionados ao mundo de ntico, ora ao mundo epist mico. J outros como Lyons (1977 apud Sweetser) e Lakoff (1972 apud Sweetser) defendem a ideia de que os verbos s o diferentes ENTRE si, exercendo cada um o seu papel e sendo, por isso, tratados como casos de homon mia4.
8 Da mesma forma, Lobato (1979 apud Vieira) tamb m afirma que os verbos modais t m valores sem nticos diferentes e que, portanto, 2 Outros recursos lingu sticos usados para expressar a modalidade s o: verbos de significa o plena (ex.: achar, acreditar, parecer); adv rbios (ex.: certamente, provavelmente, talvez); adjetivo predicativo (ex.: poss vel, preciso, prov vel); categorias gramaticais como tempo verbal (ex.: eu poderia fazer X futuro do pret rito). Outros exemplos e maiores esclarecimentos podem ser vistos em Moura Neves (2002).
9 3 Cabe aqui uma observa o quanto terminologia. Traugott; Dasher (2005) chamam a aten o para o fato de que (i) Bybee (1985) usa o termo 'modalidade orientada para o agente' para englobar todos os sentidos de modais que envolvem obriga o, desejo, habilidade, permiss o e possibilidade de ntica; (ii) Coates (1983) e Sweetser (1990) utilizam o termo 'raiz (root) para contextos de modalidade de ntica, incluindo habilidade; (iii) Palmer (1990 [1979]) e Plank (1984) observam que a modalidade habilidade/capacidade tamb m conhecida como modalidade 'din mica' ou modalidade 'facultativa'.
10 Assim, o que se pode perceber que alguns autores inserem habilidade no mbito da modalidade de ntica, e outros, como Traugott; Dasher (2005), tratam de tr s modalidades distintas: habilidade/capacidade, de ntica e epist mica. 4 Segundo Sweetser (1990), ao tratarem os modais como caso de homon mia, Lyons e Lakoff revelam acreditar que epist mico e de ntico n o s o relacionados sincronicamente, uma vez que o primeiro tratado como combina o de operadores l gicos, enquanto o segundo como predicados lexicais envolvendo for a ou obriga o.