Transcription of O Mito da Caverna 1 - ruipaz.pro.br
1 O Mito da Caverna1O Mito da Caverna narrado por Plat o no livro VII do Republica , talvez, uma das mais poderosas met foras imaginadas pela filosofia, em qualquer tempo, para descrever a situa o geral em que se encontra a humanidade. Para o fil sofo, todos n s estamos condenados a ver sombras a nossa frente e tom -las como verdadeiras. Essa poderosa cr tica condi o dos homens, escrita h quase 2500 anos atr s, inspirou e ainda inspira in meras reflex es pelos tempos a fora. A mais recente delas o livro de Jos Saramago A Caverna . A Condi o Humana Plat o viu a maioria da humanidade condenada a uma infeliz condi o. Imaginou (no Livro VII de A Rep blica, um di logo escrito entre 380-370 ) todos presos desde a inf ncia no fundo de uma Caverna , imobilizados, obrigados pelas correntes que os atavam a olharem sempre a parede em frente.
2 O que veriam ent o? Supondo a seguir que existissem algumas pessoas, uns prisioneiros, carregando para l para c , sobre suas cabe as, estatuetas de homens, de animais, vasos, bacias e outros vasilhames, por detr s do muro onde os demais estavam encadeados, havendo ainda uma escassa ilumina o vindo do fundo do subterr neo, disse que os habitantes daquele triste lugar s poderiam enxergar o bruxuleio das sombras daqueles objetos, surgindo e se desafazendo diante deles. Era assim que viviam os homens, concluiu ele. Acreditavam que as imagens fantasmag ricas que apareciam aos seus olhos (que Plat o chama de dolos) eram verdadeiras, tomando o espectro pela realidade. A sua exist ncia era pois inteiramente dominada pela ignor ncia (agn ia). Libertando-se dos grilh es Se por um acaso, segue Plat o na sua narrativa, algu m resolvesse libertar um daqueles pobres diabos da sua pesarosa ignor ncia e o levasse ainda que arrastado para longe daquela Caverna , o que poderia ent o suceder-lhe?
3 Num primeiro momento, chegando do lado de fora, ele nada enxergaria, ofuscado pela extrema luminosidade do exuberante H lio, o Sol, que tudo pode, que tudo prov e v . Mas, depois, aclimatado, ele iria desvendando aos poucos, como se fosse algu m que lentamente recuperasse a vis o, as manchas, as imagens, e, finalmente, uma infinidade outra de objetos maravilhosos que o cercavam. Assim, ainda estupefato, ele se depararia com a exist ncia de um outro mundo, totalmente oposto ao do subterr neo em que fora criado. O universo da ci ncia (gnose) e o do conhecimento (espiteme), por inteiro, se escancarava perante ele, podendo ent o vislumbrar e embevecer-se com o mundo das formas perfeitas. As Etapas do Saber Com essa met fora - o t o justamente famoso Mito da Caverna - Plat o quis mostrar muitas coisas.
4 Uma delas que sempre doloroso chegar-se ao conhecimento, tendo-se que percorrer caminhos bem definidos para alcan -lo, pois romper com a in rcia da ignor ncia (agnosis) requer sacrif cios. A primeira etapa a ser atingida a da opini o (doxa), quando o indiv duo que ergueu-se das profundezas da Caverna tem o seu primeiro contanto com as novas e imprecisas imagens exteriores. Nesse primeiro instante, ele n o as consegue captar na totalidade, vendo apenas algo impressionista flutuar a sua frente. No momento seguinte, por m, persistindo em seu olhar inquisidor, ele finalmente poder ver o objeto na sua integralidade, com os seus perfis bem definidos. Ai ent o ele atingir o conhecimento (episteme). Essa busca n o se limita a descobrir a verdade dos objetos, mas algo bem mais superior: chegar contempla o das id ias morais que regem a sociedade - o bem (agath n), o belo (to kal n) e a justi a (dikaiosyne).
5 1 Texto de Voltaire Schilling, publicado em , lido em 05/10/2009. Plat o (428-347) Livre quem pensa O Vis vel e o Intelig vel H pois dois mundos. O vis vel aquele em que a maioria da humanidade est presa, condicionada pelo lusco-fusco da Caverna , crendo, iludida que as sombras s o a realidade. O outro mundo, o intelig vel, apan gio de alguns poucos. Os que conseguem superar a ignor ncia em que nasceram e, rompendo com os ferros que os prendiam ao subterr neo, ergueram-se para a esfera da luz em busca das ess ncias maiores do bem e do belo (kalogathia). O vis vel o imp rio dos sentidos, captado pelo olhar e dominado pela subjetividade; o intelig vel o reino da intelig ncia (nous) percebido pela raz o (logos).
6 O primeiro o territ rio do homem comum (demiurgo) preso s coisas do cotidiano, o outro, a seara do homem s bio (fil sofo) que volta-se para a objetividade, descortinando um universo diante de si. O Desconforto do S bio Plat o ent o pergunta (pela boca de S crates, personagem central do di logo A Rep blica), o que aconteceria se este ser que repentinamente descobriu as maravilhas do mundo dominado por H lio, o fabuloso universo intelig vel, descesse de volta Caverna ? Como ele seria recebido? Certamente que os que se encontram encadeados fariam mofa dele, colocando abertamente em d vida a exist ncia desse tal outro mundo que ele disse ter visitado. O rec m-vindo certamente seria unanimemente hostilizado. Dessa forma, Plat o tra ou o desconforto do homem s bio quando obrigado a conviver com os demais homens comuns.
7 N o acreditam nele, n o o levam a s rio. Imaginam-no um exc ntrico, um idiossincr tico, um extravagante, quando n o um rematado doido (destino comum a que a maior parte dos cientistas, inventores, e demais revolucion rios do pensamento tiveram que enfrentar ao longo da hist ria). Quais as Alternativas Deveria por isso o s bio ent o desistir? O riso e o deboche com que invariavelmente recebido fariam com que ele devesse se afastar do conv vio social? Quem sabe n o seria prefer vel que ele se isolasse num retiro solit rio, com as costas voltadas para a cidade. Hostil id ia da vida monacal ao estilo dos pitag ricos, Plat o foi incisivo: o conhecimento do s bio deve ser compartilhado com seus semelhantes, deve estar servi o da cidade. O fil sofo cheio de sabedoria e geometria que leva uma exist ncia de eremita, acreditando-se um habitante das ilhas afortunadas, de nada serve.
8 Isso porque a lei n o se preocupa em assegurar a felicidade apenas para uma determinada classe de cidad os (no caso, os s bios), mas sim se esfor a para "realizar a ventura da cidade inteira". A liberdade que os s bios (o conhecimento d aos seus portadores a sensa o de liberdade) parecem gozar n o para eles "se voltarem para o lado que lhes aprouver, mas para faz -los concorrer ao fortalecimento do la o do Estado". O Governo dos S bios No exerc cio da vida A sabedoria deve ser partilhada Plat o n o ficou apenas na recomenda o de que os s bios devem socializar o conhecimento. Ousou ir bem mais al m. Justamente por eles, os fil sofos, serem menos "apressados em chegar ao poder" (sabendo perfeitamente distinguir o vis vel do intelig vel, a imagem da realidade, o falso do verdadeiro), que devem ser chamados para a reg ncia das sociedade.
9 A presen a deles impediria as sedi es e as intermin veis lutas civis internas t o comuns entre os diversos pretendentes rivais, "gente vidas de bens particulares", sempre em luta, divergindo com espadas, na tentativa de ficar com o poder. O governo da cidade cabe pois aos mais instru dos e aos que manifestam mais indiferen a ao poder, ainda que seja a caracter stica do s bio "o desprezo pelos cargos p blicos", pela simples raz o deles terem sido os nicos a terem vislumbrado o bem, o belo e o justo. Os Dois Mundos de Plat o Mundo vis vel Mundo invis vel A sua geografia limita-se ao espa o sombrio da Caverna todo universo fora da Caverna , o espa o composto pelo ar e pela terra inteira Caracteriza-se pela escurid o, um mundo de sombras, de lusco-fusco, de imagens imprecisas ( dolos) Dominado pela claridade exuberante de H lio, o Sol que tudo ilumina com seus raios esplendorosos, permitindo a r pida identifica o de tudo, alcan ando-se assim a ci ncia (gnose) e o conhecimento (episteme)
10 Nele o homem se encontra encadeado, constrangido a olhar s para a parede na sua frente, ficando com a mente embotada, preocupando-se apenas com as coisas mesquinhas do seu dia-a-dia Plenitude do homem liberto da opressiva Caverna , podendo investigar e inquirir tudo ao seu redor conhecendo enfim as formas perfeitas Homem dominado pelas sensa es e pelos sentidos mais prim rios Homem orientado pela intelig ncia (nous) e pela raz o (logos) Em situa o de desconhecimento e ignor ncia (agnosis) Em condi es de cultivar a sabedoria e a busca pela verdade e pelo ideal da jun o do bem com o belo (kalogathia) Condi o em que se encontra o homem comum Condi o do fil sofo O governo deve ser dos s bios O fil sofo e o seu disc pulo