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Calínoco sc i — A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise

Caso cl nico A esquizofrenia sob o olhar da psican lise Caso cl nico A esquizofrenia sob o olhar da psican lise Clinical case Schizophrenia under the scrutiny of psychoanalysis Maria Izabel Fernandes Karlin Resumo Caso cl nico de um paciente jovem diagnosticado como esquizofr nico, encaminhado ao CAP. do CBP-RJ. O rapaz de 22 anos apresentava um quadro de mutismo, embotamento afetivo e aus ncia quase total aos est mulos externos. O hist rico familiar relatado, assim como as t cnicas desenvolvidas no set anal tico. A elabora o de um espa o criativo e de est mulos ori- ginados na rela o psicanalista e paciente produziu ao longo do tempo, elementos presentes no tratamento psicanal tico, incluindo a transfer ncia, a contratransfer ncia, a resist ncia e a associa o livre. Palavras-chave: esquizofrenia , Desejo, Objeto, Libido, Fragmenta o e Integra o. Introdu o interpretar essa fala, que, mais do que em Esse artigo relata o caso cl nico de um jovem pacientes neur ticos, pode se apresentar por paciente, diagnosticado como esquizofr ni- mutismos, gestos, palavras aparentemente co que segui por quatro anos.

Estudos de Psicanálise belo orizonte-M n p ulho 93 Caso clínico A esquizofrenia sob o olhar da psicanálise Introdução Esse artigo relata o caso clínico de …

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1 Caso cl nico A esquizofrenia sob o olhar da psican lise Caso cl nico A esquizofrenia sob o olhar da psican lise Clinical case Schizophrenia under the scrutiny of psychoanalysis Maria Izabel Fernandes Karlin Resumo Caso cl nico de um paciente jovem diagnosticado como esquizofr nico, encaminhado ao CAP. do CBP-RJ. O rapaz de 22 anos apresentava um quadro de mutismo, embotamento afetivo e aus ncia quase total aos est mulos externos. O hist rico familiar relatado, assim como as t cnicas desenvolvidas no set anal tico. A elabora o de um espa o criativo e de est mulos ori- ginados na rela o psicanalista e paciente produziu ao longo do tempo, elementos presentes no tratamento psicanal tico, incluindo a transfer ncia, a contratransfer ncia, a resist ncia e a associa o livre. Palavras-chave: esquizofrenia , Desejo, Objeto, Libido, Fragmenta o e Integra o. Introdu o interpretar essa fala, que, mais do que em Esse artigo relata o caso cl nico de um jovem pacientes neur ticos, pode se apresentar por paciente, diagnosticado como esquizofr ni- mutismos, gestos, palavras aparentemente co que segui por quatro anos.

2 Dentro do pos- soltas e muitos n o ditos . s vel, o caso foi tratado sob um olhar psica- Um aspecto, que tamb m me interessa nal tico com a inten o de investigar o quan- ao relatar esse caso, a observa o de como to a t cnica psicanal tica pode ser utilizada importante para o psicanalista envolvido em pacientes psic ticos, sobretudo em um com o paciente estar constantemente atento caso da gravidade desse paciente, bem como para o quanto e como ele suporta trabalhar do quanto essa t cnica tenha que ser ajustada nas condi es apresentadas, considerando sem, contudo, deixar de lado os pressupostos o processo que vive quando deparado com b sicos da psican lise. um paciente que sofre, mas que ao mesmo O grande impasse da t cnica psicanal ti- tempo adoeceu a ponto de n o expressar ne- ca com o sujeito psic tico a dificuldade no nhuma demanda. estabelecimento da transfer ncia desse com Entrar em contato com o estado frag- o psicanalista, e sabemos o quanto a transfe- mentado do sujeito psic tico pressup e en- r ncia uma conditio sine qua non para o trar em contato com as nossas fragmenta- xito de uma an lise.

3 Es e, mais que tudo, olhar de frente a nos- Nesse caso, a escuta sob o vi s psicanal - sa sensa o de impot ncia diante do sujeito tico do paciente foi o elemento fundamen- que aparentemente n o nos deseja e que nos tal no desenvolvimento do trabalho. Existe coloca quase sempre diante de um questio- uma fala em um paciente esquizofr nico, e namento o que voc quer de mim e do a quest o que se p e ao psicanalista como que eu quero de voc . Estudos de Psican lise | Belo Horizonte-MG | n. 41 | p. 93 110 | Julho/2014 93. Caso cl nico A esquizofrenia sob o olhar da psican lise Caso cl nico estranhas. Quais eram essas coisas estranhas O paciente foi encaminhado ao CAP do expressas pelo filho o pai n o conseguia re- CBP-RJ por indica o de uma escola es- petir (com muita dificuldade ele conseguiu tadual da Zona Sul do Rio de Janeiro, com dar a entender que o filho tinha utilizado a ficha de entrada no dia 03/11/2008.)

4 Ele era palavra diabo ). aluno daquela escola e estava cursando pela Segundo o pai, ao chegar em casa, o rapaz segunda vez o segundo ano do ensino m dio, continuava muito agitado, o que o obrigou a com 22 anos de idade. chamar o Corpo de Bombeiros, que os con- Aceitar ou n o o paciente foi uma das duziu ao Hospital Rocha Maia, que por sua primeiras quest es levantadas no mbito do vez os encaminhou ao Pinel, onde ele ficou CAP. N o s o paciente n o chegou at ali internado por alguns dias. Quantos dias o por vontade pr pria, bem como seu quadro paciente ficara internado e quais as indica- gerava d vidas quanto a seu diagn stico. es dadas pela institui o o pai se recusava Ap s algumas discuss es entre os coorde- a falar. As poucas vezes que conseguiu falar nadores, foi decidido que aceitar amos o pa- sobre o argumento era para dizer que o Pinel ciente. era um lugar muito ruim e que seu filho n o O pai do paciente era porteiro de um pr - pertencia quilo, pois era um lugar para dro- dio na zona sul do Rio de Janeiro, e a m e, gados.

5 Empregada dom stica. O casal teve dois fi- Perguntei se j haviam ocorrido epis dios lhos, e o paciente era cerca de tr s anos mais como esse anteriormente, e sua resposta foi novo que a irm . A fam lia morava havia que esse tinha sido o nico. Ele tamb m re- muitos anos nesse mesmo pr dio onde o pa- latou que o filho tinha sempre sido um rapaz ciente passou toda a sua inf ncia e adoles- normal at esse evento. c ncia. O discurso do pai era impregnado por Na primeira triagem n o foi poss vel ob- muita ansiedade, mas em alguns momentos ter praticamente nenhuma informa o acer- conseguiu revelar que um dos motivos que ca do paciente, pois ele n o conseguia falar e o convenceram a procurar ajuda no CBP-RJ. emitia apenas alguns sons. era seu medo de que o comportamento do Minha primeira iniciativa foi refazer a en- filho pudesse de alguma maneira prejudicar trevista para tentar obter mais informa es, seu trabalho, j que a fam lia vivia no pr dio solicitando a presen a do pai e da m e.

6 Onde ele trabalhava. Nesse primeiro encontro o paciente veio Tamb m ficou bastante evidente a sua acompanhado somente pelo pai, que jus- preocupa o e o desejo de que seu filho fosse tificou a aus ncia da esposa, seja por estar homem e que gostasse de mulheres. Repetia muito ocupada com seu trabalho, seja des- sempre esse o meu nico filho homem . crevendo-a como uma pessoa que naquele Repetiu v rias vezes como o filho jogava bola momento estava muito fragilizada devido a com ele quando era pequeno, mas que ap s uma doen a que, segundo ele, quase a levou a crise se recusava a jogar bola ou ir praia morte. Eu pedi que o pai relatasse o que ti- com o pai. nha acontecido com o filho. Ele ent o contou Embora o paciente n o tivesse partici- que certo dia o filho teve uma crise na escola pado ativamente dessa conversa, achei pru- e foi acompanhado at a casa por um colega. dente a sua presen a, pois est vamos falando Pelo que foi reportado a ele, durante a aula o sobre ele.

7 Durante o tempo em que falei com paciente improvisamente tinha se levantado pai, seu olhar era vago e fixo em dire o . de sua cadeira e iniciado a fazer um discur- porta da sala. Foi nessa condi o que o pa- so muito confuso e desconexo. E ao chegar ciente chegou para ser atendido e, segundo o em casa ele tinha continuado a falar coisas pai, ele n o estava sendo medicado. 94 Estudos de Psican lise | Belo Horizonte-MG | n. 41 | p. 93 110 | Julho/2014. Caso cl nico A esquizofrenia sob o olhar da psican lise At ent o, a fam lia tinha tentado trat -lo A doen a grave da m e tinha sido uma ci- na Igreja Universal, e pelo discurso do pai rurgia para retirada do tero, mas n o tinha ficou claro que o tratamento na Igreja era sido nada relacionado a um c ncer ou a outra vontade da sua esposa. Ao final da entrevista doen a grave que a levasse necessariamente ficou acordado que o paciente teria duas ses- a um risco de morte.

8 Diante dessa disson n- s es por semana, que seria seguido por um cia de relatos, pude perceber que o pai era m dico psiquiatra e que o pai se comprome- um sujeito com um n cleo bem hist rico. A. tia a ajudar seu filho a seguir rigorosamente a m e me passou uma sensa o de indiferen a medica o dada pelo m dico. Tamb m con- e falta de vida. dicionei o in cio do tratamento ao compa- Finalmente est vamos os tr s juntos. Meu recimento da m e dele para que eu pudesse paciente, sempre silencioso, olhando o vazio;. conversar com ela. o pai muito agitado, ansioso e interrompen- Atrav s do CBP-RJ consegui um psiquia- do sempre a conversa, e a m e, calada. tra ligado institui o para acompanhar o Decidi fazer algumas perguntas para a paciente. O pai, nessa ocasi o, apresentou m e e devo dizer que ela descrevia mui- uma s rie de exames neurol gicos do filho to melhor o quadro do filho do que o pai. que n o apresentavam nenhuma anorma- Fornecia mais detalhes, mas ao mesmo tem- lidade.

9 Ao que tudo indicava, esse pai esta- po falava do filho sem sinal de sofrimento. va buscando tratamento para o filho junto Para ela seu filho era assim. Talvez a nica aos m dicos, mas a m dicos neurologistas. coisa que a perturbasse um pouco era que ela Como acontece frequentemente com pacien- o achava muito pregui oso. Ela percebeu que tes que sofrem no campo ps quico, os pais e o filho n o estava bem muito antes do epis - familiares negam o problema e preferem ou- dio na escola, mas ao mesmo tempo ela deu vir um diagn stico confirmando um mal f - a entender que nunca tinha achado seu filho sico do que ouvir a palavra esquizofrenia . muito normal. Embora o paciente n o falasse nem me Sua descri o do filho era bem diferente olhasse, expliquei a ele as condi es para seu da do pai. Ela relatou que o paciente tinha acompanhamento, ou seja, a necessidade de sido sempre um menino diferente, que sem- tomar os rem dios prescritos pelo m dico e pre teve dificuldades na escola e que ela n o que nossos encontros seriam para falar ou sabia nem como ele tinha chegado at o en- ficar em sil ncio, mas que s ele ficaria co- sino m dio.

10 Contou que ele nunca foi de ter migo enquanto seu pai o aguardaria na sala amigos e que por volta dos 14 anos come ou de espera. a usar s roupas pretas e culos escuros, fi- Na segunda entrevista a m e do pacien- cando sempre trancado no seu quarto, isola- te compareceu. Fiquei surpresa ao ver que do. Segundo ela, toda a sua fam lia e amigos aquela pessoa que estava na minha frente n o percebiam que ele era diferente e deu a en- tinha nenhuma semelhan a com a descri o tender que isso a envergonhava bastante. dada por seu marido, de uma mulher prati- Al m de usar s roupas pretas, ele toma- camente beira da morte. Contrariamente, va v rios banhos durante a noite e se olhava eu encontrei essa mulher muito bem vestida, constantemente no espelho. N o suportava com uma apar ncia jovem (apesar dos seus televis o ou r dios ligados em casa e, antes 50 anos) e sem rugas no rosto. Tentei cum- da crise, come ou a repetir o final das pala- priment -la, mas sua m o escorregou sobre vras que lhe eram faladas e, em particular, a a minha evitando qualquer contato de pele.


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