Transcription of CONTOS AFRICANOS - UFSC
1 P gina1 CONTOS AFRICANOS Sum rio A LUA FEITICEIRA E A FILHA QUE N O SABIA PILAR .. 2 A MENINA QUE N O FALAVA .. 3 A GAZELA E O CARACOL .. 3 O HOMEM CHAMADO NAMARASOTHA .. 4 O RATO E O CA 5 OS SEGREDOS DA NOSSA CASA .. 6 TODOS DEPENDEM DA .. 6 UMA ID IA TONTA .. 7 A HIENA E O GALA-GALA .. 7 CORA O-SOZINHO .. 8 O FIM DA AMIZADE ENTRE O CORVO E O COELHO .. 8 O C GADO E O LAGARTO .. 9 O CARACOL E A IMPALA .. 10 O GATO E O RATO .. 10 O ELEFANTE, ESCRAVO DO COELHO .. 11 PITA PONJE .. 13 PORQUE QUE OS C ES SE CHEIRAM UNS AOS OUTROS .. 13 ERA UMA 14 O PORCO E O MILHAFRE .. 14 A CRIA O DO MUNDO .. 14 O LE O E O 15 A CABA A UNIVERSAL .. 15 O CELEIRO DO MUNDO .. 16 P gina2 A LUA FEITICEIRA E A FILHA QUE N O SABIA PILAR A lua tinha uma filha branca e em idade de casar. Um dia apareceu-lhe em casa um monh pedindo a filha em casamento. A lua perguntou-lhe: Como pode ser isso, se tu s monh ?
2 Os monh s n o comem ratos nem carne de porco e tamb m n o apreciam Al m disso, ela n o sabe O monh respondeu: N o vejo impedimento porque, embora eu seja monh , a menina pode continuar a comer ratos e carne de porco e a beber Quanto a n o saber pilar, isso tamb m n o tem import ncia pois as minhas irm s podem faz -lo. A lua, ent o, respondeu: Se como dizes, podes levar a minha filha que, quanto ao mais, boa rapariga. O monh levou consigo a menina. Ao chegar a casa foi ter com a sua m e e fez-lhe saber que a menina com quem tinha casado comia ratos, carne de porco e bebia cerveja, mas que era necess rio deix -la -vontade naqueles h bitos. Acrescentou tamb m que ela n o sabia pilar mas que as suas irm s teriam a paci ncia de suprir essa falta. Dias depois, o monh saiu para o mato ca a. Na sua aus ncia, as irm s chamaram a rapariga (sua cunhada) para ir pilar com elas para as pedras do rio e esta desatou a chorar.
3 As irm s censuraram-na: Ent o tu p es-te a chorar por te convidarmos a pilar?.. Isso n o est bem! Tens de aprender porque trabalho pr prio das mulheres. E, sem mais conversas, pegaram-lhe na m o e conduziram-na ao lugar onde costumavam pilar. Quando chegaram ao rio puseram-lhe o pil o na frente, entregaram-lhe um ma o e ordenaram que pilasse. A rapariga come ou a pilar, mas com uma m goa t o grande que as l grimas n o paravam de lhe escorrer pela cara. Enquanto pilava ia-se lamentando: Quando estava em casa da minha m e n o costumava Ao dizer estas palavras, a rapariga, sempre a pilar e juntamente com o pil o, come ou a sumir-se pelo ch o abaixo, por entre as pedras que, misteriosamente, se afastavam. E foi mergulhando, at desaparecer. Fonte: Hist ria africanas.
4 Janelas! 2- contar. V P gina3 A MENINA QUE N O FALAVA Certo dia, um rapaz viu uma rapariga muito bonita e apaixonou-se por ela. Como se queria casar com ela, no outro dia, foi ter com os pais da rapariga para tratar do assunto. Essa nossa filha n o fala. Caso consigas faz -la falar, podes casar com ela, responderam os pais da rapariga. O rapaz aproximou-se da menina e come ou a fazer-lhe v rias perguntas, a contar coisas engra adas, bem como a insult -la, mas a mi da n o chegou a rir e n o pronunciou uma s palavra. O rapaz desistiu e Foi-se embora. Ap s este rapaz, seguiram-se outros pretendentes, alguns com muita fortuna, mas, ningu m conseguiu faz -la falar. O ltimo pretendente era um rapaz sujo, pobre e insignificante. Apareceu junto dos pais da rapariga dizendo que queria casar com ela, ao que os pais responderam: Se j v rias pessoas apresent veis e com muito dinheiro n o conseguiram faz -la falar, tu que vais conseguir?
5 Nem penses nisso! O rapaz insistiu e pediu que o deixassem tentar a sorte. Por fim, os pais acederam. O rapaz pediu rapariga para irem sua machamba, para esta o ajudar a sachar. A machamba estava carregada de muito milho e amendoim e o rapaz come ou a sach -los. Depois de muito trabalho, a menina ao ver que o rapaz estava a acabar com os seus produtos, perguntou-lhe: O que est s a fazer? O rapaz come ou a rir e, por fim, disse para regressarem a casa para junto dos pais dela e acabarem de uma vez com a quest o. Quando a chegaram, o rapaz contou o que se tinha passado na machamba. A quest o foi discutida pelos anci os da aldeia e organizou-se um grande casamento. Fonte: Hist rias africanas. Janelas! 2- contar. A GAZELA E O CARACOL Uma gazela encontrou um caracol e disse-lhe: Tu, caracol, s incapaz de correr, s te arrastas pelo ch o.
6 O caracol respondeu: Vem c no Domingo e ver s! O caracol arranjou cem pap is e em cada folha escreveu: Quando vier a gazela e disser "caracol", tu respondes com estas palavras: "Eu sou o caracol" . Dividiu os pap is pelos seus amigos carac is dizendo-lhes: Leiam estes pap is para que saibam o que fazer quando a gazela vier. No Domingo a gazela chegou povoa o e encontrou o caracol. Entretanto, este pedira aos seus amigos que se escondessem em todos os caminhos por onde ela passasse, e eles assim fizeram. Quando a gazela chegou, disse: Vamos correr, tu e eu, e tu vais ficar para tr s! O caracol meteu-se num arbusto, deixando a gazela correr. Enquanto esta corria ia chamando: Caracol! E havia sempre um caracol que respondia: Eu sou o caracol. Mas nunca era o mesmo por causa das folhas de papel que foram distribu das.
7 A gazela, por fim, acabou por se deitar, esgotada, morrendo com falta de ar. O caracol venceu, devido esperteza de ter escrito cem pap is. Fonte: P gina4 O HOMEM CHAMADO NAMARASOTHA Havia um homem que se chamava Namarasotha. Era pobre e andava sempre vestido com farrapos. Um dia foi ca a. Ao chegar ao mato, encontrou uma impala morta. Quando se preparava para assar a carne do animal apareceu um passarinho que lhe disse: Namarasotha, n o se deve comer essa carne. Continua at mais adiante que o que bom estar l . O homem deixou a carne e continuou a caminhar. Um pouco mais adiante encontrou uma gazela morta. Tentava, novamente, assar a carne quando surgiu outro passarinho que lhe disse: Namarasotha, n o se deve comer essa carne. Vai sempre andando que encontrar s coisa melhor do que isso. Ele obedeceu e continuou a andar at que viu uma casa junto ao caminho.
8 Parou e uma mulher que estava junto da casa chamou-o, mas ele teve medo de se aproximar, pois estava muito esfarrapado. Chega aqui! insistiu a mulher. Namarasotha aproximou-se ent o. Entra, disse ela. Ele n o queria entrar porque era pobre. Mas a mulher insistiu e Namarasotha entrou, finalmente. Vai te lavar e veste estas roupas, disse a mulher. E ele lavou-se e vestiu as cal as novas. Em seguida, a mulher declarou: A partir deste momento esta casa tua. Tu s o meu marido e passas a ser tu a mandar. E Namarasotha ficou, deixando de ser pobre. Um certo dia havia uma festa a que tinham de ir. Antes de partirem para a festa, a mulher disse a Namarasotha: Na festa a que vamos quando dan ares n o dever s virar-te para tr s. Namarasotha concordou e l foram os dois. Na festa bebeu muita cerveja de farinha de mandioca e embriagou-se.
9 Come ou a dan ar ao ritmo do batuque. A certa altura a m sica tornou-se t o animada que ele acabou por se virar. E no momento em que se virou, ficou como estava antes de chegar casa da mulher: pobre e esfarrapado. NOTA: Todo o homem adulto deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. S assim respeitado como homem e tido como bem vestido . O adulto sem mulher esfarrapado e pobre . A verdadeira riqueza para um homem a esposa, os filhos e o lar. Os animais que Namarasotha encontrou mortos simbolizam mulheres casadas e se comesse dessa carne estaria a cometer adult rio. Os passarinhos representam os mais velhos, que o aconselham a casar com uma mulher livre. Nas sociedades matrilineares do Norte de Mo ambique (donde prov m este conto), s o os homens que se integram nos espa os familiares das esposas.
10 Nestas sociedades, o chefe de cada um destes espa os o tio materno da esposa. O homem casado tem de sujeitar-se s normas e regras que este tra a. Se se revolta e imp e as suas, perde o seu estatuto de marido e expulso, ficando cada c njuge com o que levou para o lar. Cumprindo sempre o que os passarinhos lhe iam dizendo durante a sua viagem em busca de riqueza , Namarasotha acabou por encontr -la: casou com uma mulher livre e obteve um lar. Mas por n o ter seguido o conselho da mulher, perdeu o estatuto dignificante de homem adulto e casado. Fonte: Eduardo Medeiros (org.). CONTOS Populares Mo ambicanos, 1997. m P gina5 O RATO E O CA ADOR Antigamente havia um ca ador que usava armadilhas, abrindo covas no ch o. Ele tinha uma mulher que era cega e fizera com ela tr s filhos. Um dia, quando visitava as suas armadilhas, encontrou-se com um le o: Bom dia, senhor!