Transcription of INFÂNCIA, CRIANÇA E DIVERSIDADE: PROPOSTA E …
1 INF NCIA, CRIAN A E DIVERSIDADE: PROPOSTA E AN LISE Aretusa Santos UFJF Bianca Recker Lauro UFJF Se a presen a enigm tica da inf ncia a presen a de algo radical e irredutivelmente outro, ter-se- de pens -la na medida em que sempre nos escapa: na medida em que inquieta o que sabemos (e inquieta a soberba de nossa vontade de saber), na medida em que suspende o que podemos (e a arrog ncia da nossa vontade de poder) e na medida em que coloca em quest o os lugares que constru mos para ela (e a presun o da nossa vontade de abarc -la).
2 A esta a vertigem: no como a alteridade da inf ncia nos leva a uma regi o em que n o comandam as medidas do nosso saber e do nosso poder. (Larrosa, 1998b, p. 232) Falar sobre a inf ncia falar sobre algo indecifr vel, enigm tico. Talvez seria correto dizer que a fase da vida onde somos crian as e por onde se inicia nosso aprendizado e nossas descobertas. Mas a inf ncia se revela algo mais complexo, talvez por isso v rios pensadores desde a antig idade v m tentando entender e compreender o que Larrosa (1998a, p.)
3 67) caracterizou como seres estranhos dos quais nada se sabe, esses seres selvagens que n o entendem nossa l ngua . A inf ncia, para este autor, algo que buscamos explicar, nomear e intervir. Sabemos o que s o as crian as e procuramos falar a sua l ngua para que possam nos entender. Mas a inf ncia acaba por nos dar o troco, ela est muito al m de qualquer captura, ela inquieta nossos saberes, questiona o poder de nossas pr ticas e nos instiga e fascina a cada dia. V rias concep es de inf ncia foram surgindo no decorrer de v rios estudos.
4 Ghiraldelli (2002) faz refer ncia a duas concep es de inf ncia. A da crian a caracterizada como inocente, o que segundo Rousseau seria a crian a imersa na inoc ncia e na pureza. E a da inf ncia como sendo um per odo com uma s rie de caracter sticas, mas nunca de inoc ncia e bondade como essenciais. De acordo com este autor, Nabokov um bom exemplo contra a vis o rousseauniana, sendo que para ele n o havia nada de inocente, puro e bondoso na inf ncia. Do in cio dos anos 60 temos a obra do historiador Philippe Ari s, Hist ria social da inf ncia e da fam lia, que tra a uma evolu o hist rica das 2concep es de inf ncia a partir das formas de falar e sentir dos adultos em rela o ao que fazer com as crian as.
5 O sentimento de fam lia, inf ncia, sentimento de classes, dentre outros, surgem como as manifesta es da intoler ncia diante da diversidade, existindo uma preocupa o de uniformidade. Para Ari s (1981) houve um per odo da hist ria em que n o havia sentimentos pela inf ncia. Nas suas palavras, Na sociedade medieval, que tomamos como ponto de partida, o sentimento de inf ncia n o existia o que n o quer dizer que as crian as n o fossem negligenciadas, abandonadas ou desprezadas. O sentimento da inf ncia n o significa o mesmo que afei o pelas crian as: corresponde consci ncia da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a crian a do adulto, mesmo jovem.
6 Essa consci ncia n o existia. Por essa raz o, assim que a crian a tinha condi es de viver sem a solicitude constante de sua m e ou de sua ama, ela ingressava na sociedade dos adultos e n o se distinguia mais destes. (p. 156) Com o tempo surgem dois tipos de sentimentos de inf ncia: Um novo sentimento da inf ncia havia surgido, em que a crian a, por sua ingenuidade, gentileza e gra a, se tornava uma fonte de distra o e de relaxamento para o adulto, um sentimento que Ari s (1981, p. 158) chama de paparica o.
7 Sentimento ao qual a crian a era vista como uma coisa engra adinha que servia como distra o para os adultos. Outro sentimento que surge foi o de se penetrar na mente da crian a para melhor adaptar ao seu n vel os m todos de educa o. entre os moralistas e os educadores do s culo XVII que vemos formar-se esse outro sentimento da inf ncia [..] que inspirou toda a educa o at o s culo XX, tanto na cidade como no campo, na burguesia como no povo. O apego inf ncia e sua particularidade n o se exprimia mais atrav s da distra o e da brincadeira, mas atrav s do interesse psicol gico e da preocupa o moral.
8 A crian a n o era nem divertida nem agrad vel. (Ari s, 1981, p. 162) Outro autor, Damazio (1991), explicita em sua obra as teorias que explicitam a forma como a crian a adquire o conhecimento: Empirismo: todo conhecimento uma decorr ncia da experi ncia concreta. Para o empirismo a crian a um ser incompleto, um vazio inicial, j que sua mente como uma p gina em branco que deve ser preenchida ao sabor dos fatores exteriores. 3 Racionalismo: a compreens o do mundo s vi vel pela raz o humana e gra as a ela. A crian a, nessa tica, um adulto pr -formado, a crian a ser o resultado de sua pr pria raz o, que j nasce com ela e que precisa ser desenvolvida.
9 Essas duas teorias refor am um v cio do pensamento moderno: a id ia de que a crian a um ser passivo da a o externa, ambiental e outro onde ela vista como um adulto preestabelecido que se deve cultivar. Nessas duas concep es a crian a n o passa de um mero objeto do mundo. Segundo Damazio (1991), modernamente nos deparamos com 3 te ricos e suas abordagens te ricas: Watson: Behaviorista. O homem plenamente adapt vel e condicionado pelo meio em que vive. A crian a tida como um ser mold vel e adapt vel.
10 Piaget: Construtivismo. O homem o sujeito da a o sobre o meio. O desenvolvimento da crian a que propicia seu aprendizado. Freud: Psican lise. Todo indiv duo resultado da s ntese de tr s fatores o id (nosso inconsciente) o ego (nossa consci ncia) e o superego (valores culturais). A forma o ser vivida pela crian a segundo 2 mecanismos a proje o de seu mundo interior no mundo concreto, exterior; e a introje o das experi ncias com fatos do mundo circundante sobre sua interioridade, isto , sua mente.