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Para uma sociologia das ausências e uma sociologia …

Revista Cr tica de Ci ncias Sociais, 63, Outubro 2002: 237-280 BOAVENTURA DE SOUSA SANTOSF aculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Centro de Estudos SociaisPara uma sociologia das aus nciase uma sociologia das emerg ncias*Procede-se a uma cr tica do modelo de racionalidade ocidental o modelo de umaraz o indolente propondo-se os proleg menos de um outro modelo, o de uma raz ocosmopolita. Procura-se fundar tr s procedimentos sociol gicos nesta raz ocosmopolita: a sociologia das aus ncias, a sociologia das emerg ncias e o trabalho detradu Introdu oO presente texto resulta de um projecto de investiga o com o t tulo A reinven o da emancipa o social por mim recentemente projecto propunha-se estudar as alternativas globaliza o neolibe-ral e ao capitalismo global produzidas pelos movimentos sociais e pelasONGs, na sua luta contra a exclus o e a discrimina o em diferentesdom nios sociais e em diferentes pa ses.

Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências | 241 passou a ver-se como multicultural. Os outros saberes, não científicos nem

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1 Revista Cr tica de Ci ncias Sociais, 63, Outubro 2002: 237-280 BOAVENTURA DE SOUSA SANTOSF aculdade de Economia da Universidade de Coimbra e Centro de Estudos SociaisPara uma sociologia das aus nciase uma sociologia das emerg ncias*Procede-se a uma cr tica do modelo de racionalidade ocidental o modelo de umaraz o indolente propondo-se os proleg menos de um outro modelo, o de uma raz ocosmopolita. Procura-se fundar tr s procedimentos sociol gicos nesta raz ocosmopolita: a sociologia das aus ncias, a sociologia das emerg ncias e o trabalho detradu Introdu oO presente texto resulta de um projecto de investiga o com o t tulo A reinven o da emancipa o social por mim recentemente projecto propunha-se estudar as alternativas globaliza o neolibe-ral e ao capitalismo global produzidas pelos movimentos sociais e pelasONGs, na sua luta contra a exclus o e a discrimina o em diferentesdom nios sociais e em diferentes pa ses.

2 O principal objectivo do projectoera determinar em que medida a globaliza o alternativa est a ser produ-zida a partir de baixo e quais s o as suas possibilidades e limites. Escolhiseis pa ses, cinco dos quais semiperif ricos, em diferentes minha hip tese de trabalho era que os conflitos entre a globaliza oneoliberal hegem nica e a globaliza o contra-hegem nica s o mais inten-sos nestes pa ses. Para confirmar esta hip tese, seleccionei tamb m umdos pa ses mais pobres do mundo: Mo ambique. Os seis pa ses escolhidos,para al m de Mo ambique como pa s perif rico, eram a frica do Sul, oBrasil, a Col mbia, a ndia e Portugal. Nestes pa ses, identificaram-se ini-ciativas, movimentos, experi ncias, em cinco reas tem ticas: democraciaparticipativa; sistemas de produ o alternativos; multiculturalismo, direitoscolectivos e cidadania cultural; alternativas aos direitos de propriedade* As minhas incurs es pela teoria liter ria devem muito ao di logo com Maria Irene igualmente grato a Paula Meneses, minha assistente de investiga o, pela efici ncia do seutrabalho.

3 Agrade o tamb m a Jo o Arriscado Nunes, Allen Hunter e C sar Rodr | Boaventura de Sousa Santosintelectual e biodiversidade capitalista; novo internacionalismo oper parte do projecto, e com a inten o de identificar outros discursosou narrativas sobre o mundo, realizaram-se extensas entrevistas com acti-vistas ou dirigentes dos movimentos ou iniciativas sociais projecto levou a uma profunda reflex o epistemol gica de que resultouo presente o os seguintes os factores e circunst ncias que mais contribuiram paraessa reflex o. Em primeiro lugar, tratava-se de um projecto conduzido forados centros hegem nicos de produ o da ci ncia social, com o objectivo decriar uma comunidade cient fica internacional independente desses cen-tros. Em segundo lugar, o projecto implicava o cruzamento, n o apenas dediferentes tradi es te ricas e metodol gicas das ci ncias sociais, mas tam-b m de diferentes culturas e formas de interac o entre a cultura e o conhe-cimento, bem como entre o conhecimento cient fico e o conhecimenton o-cient fico.

4 Em terceiro lugar, o projecto debru ava-se sobre lutas, ini-ciativas, movimentos alternativos, muitos dos quais locais, muitas vezes emlugares remotos do mundo e, assim, talvez f ceis de desacreditar como irre-levantes, ou demasiado fr geis ou localizados para oferecer uma alternativacred vel ao factores e circunst ncias acima descritos levaram-me a tr s conclus primeiro lugar, a experi ncia social em todo o mundo muito maisampla e variada do que o que a tradi o cient fica ou filos fica ocidentalconhece e considera importante. Em segundo lugar, esta riqueza social est a ser desperdi ada. deste desperd cio que se nutrem as ideias queproclamam que n o h alternativa, que a hist ria chegou ao fim, e outrassemelhantes. Em terceiro lugar, para combater o desperd cio da experi n-cia, para tornar vis veis as iniciativas e os movimentos alternativos e paralhes dar credibilidade, de pouco serve recorrer ci ncia social tal como aconhecemos.

5 No fim de contas, essa ci ncia respons vel por esconder oudesacreditar as alternativas. Para combater o desperd cio da experi nciasocial, n o basta propor um outro tipo de ci ncia social. Mais do que isso, necess rio propor um modelo diferente de racionalidade. Sem uma cr ticado modelo de racionalidade ocidental dominante pelo menos durante duzen-tos anos, todas as propostas apresentadas pela nova an lise social, por maisalternativas que se julguem, tender o a reproduzir o mesmo efeito de ocul-ta o e descr ensaio, procedo a uma cr tica deste modelo de racionalidade aque, seguindo Leibniz, chamo raz o indolente e proponho os proleg menos1O projecto pode ser consultado em uma sociologia das aus ncias e uma sociologia das emerg ncias | 239de um outro modelo, que designo como raz o Procuro fundartr s procedimentos sociol gicos nesta raz o cosmopolita: a sociologia dasaus ncias, a sociologia das emerg ncias e o trabalho de tradu pontos de partida s o tr s.

6 Em primeiro lugar, a compreens o domundo excede em muito a compreens o ocidental do mundo. Em segundolugar, a compreens o do mundo e a forma como ela cria e legitima o podersocial tem muito que ver com concep es do tempo e da terceiro lugar, a caracter stica mais fundamental da concep o ociden-tal de racionalidade o facto de, por um lado, contrair o presente e, poroutro, expandir o futuro. A contrac o do presente, ocasionada por umapeculiar concep o da totalidade, transformou o presente num instantefugidio, entrincheirado entre o passado e o futuro. Do mesmo modo, aconcep o linear do tempo e a planifica o da hist ria permitiram expan-dir o futuro indefinidamente. Quanto mais amplo o futuro, mais radiosaseram as expectativas confrontadas com as experi ncias do presente.

7 Nosanos quarenta, Ernst Bloch (1995: 313) interrogava-se, perplexo: se vive-mos apenas no presente, por que raz o ele t o fugaz? a mesma perple-xidade que est subjacente minha reflex o neste uma racionalidade cosmopolita que, nesta fase de transi o,ter de seguir a traject ria inversa: expandir o presente e contrair o assim ser poss vel criar o espa o-tempo necess rio para conhecer e valo-rizar a inesgot vel experi ncia social que est em curso no mundo de outras palavras, s assim ser poss vel evitar o gigantesco desperd cioda experi ncia de que sofremos hoje em dia. Para expandir o presente,proponho uma sociologia das aus ncias; para contrair o futuro, uma socio-logia das emerg que vivemos, como mostram Prigogine (1997) e Wallerstein (1999),numa situa o de bifurca o, a imensa diversidade de experi ncias sociaisrevelada por estes processos n o pode ser explicada adequadamente poruma teoria geral.

8 Em vez de uma teoria geral, proponho uma teoria ou umprocesso de tradu o, capaz de criar uma inteligibilidade m tua entre expe-ri ncias poss veis e dispon indol ncia da raz o criticada neste ensaio ocorre em quatro formasdiferentes: a raz o impotente, aquela que n o se exerce porque pensa quenada pode fazer contra uma necessidade concebida como exterior a ela2A designa o de Leibniz tem-me servido para situar o trabalho de reflex o te rica e epistemol gicaque tenho vindo a fazer nos ltimos anos. O t tulo do livro em que dou conta dessa reflex o testemunho disso mesmo: A cr tica da raz o indolente. Contra o desperd cio da experi ncia (Santos,2000). No presente trabalho, proponho-me dar mais um passo nessa reflex | Boaventura de Sousa Santospr pria; a raz o arrogante, que n o sente necessidade de exercer-se porquese imagina incondicionalmente livre e, por conseguinte, livre da necessi-dade de demonstrar a sua pr pria liberdade; a raz o meton mica, que sereivindica como a nica forma de racionalidade e, por conseguinte, n o seaplica a descobrir outros tipos de racionalidade ou, se o faz, f -lo apenaspara as tornar em mat ria-prima.

9 3 e a raz o prol ptica, que n o se aplica apensar o futuro, porque julga que sabe tudo a respeito dele e o concebecomo uma supera o linear, autom tica e infinita do raz o indolente subjaz, nas suas v rias formas, ao conhecimento hege-m nico, tanto filos fico como cient fico, produzido no Ocidente nos ltimosduzentos anos. A consolida o do Estado liberal na Europa e na Am ricado Norte, as revolu es industriais e o desenvolvimento capitalista, o colo-nialismo e o imperialismo, constitu ram o contexto s cio-pol tico em que araz o indolente se desenvolveu. As excep es parciais, o romantismo e omarxismo, n o foram nem suficientemente fortes nem suficientemente dife-rentes para poderem ser uma alternativa raz o indolente. Por isso, a raz oindolente criou o quadro para os grandes debates filos ficos e epistemol -gicos dos dois ltimos s culos e, de facto, presidiu a eles.

10 Por exemplo, araz o impotente e a raz o arrogante formataram o debate entre determinismoe livre arb trio e, mais tarde, o debate entre realismo e construtivismo e odebate entre estruturalismo e existencialismo. N o surpreende que estesdebates tenham sido intelectualmente indolentes. Por sua vez, a raz o meto-n mica apropriou-se de debates antigos, como o debate entre o holismo e oatomismo, e constituiu outros, como, por exemplo, o Methodenstreit entreas ciencias nomot ticas e as ci ncias idiogr ficas, entre a explica o e acompreens o. Nos anos sessenta do s culo XX, presidiu ao debate sobre asduas culturas lan adas por C. P. Snow (1959, 1964). Neste debate, a raz ometon mica ainda se considerava a si pr pria como uma totalidade, se bemque j n o t o monol tica. O debate aprofundou-se nos anos oitenta enoventa com a epistemologia feminista, os estudos culturais e os estudossociais da ci ncia.


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