Transcription of Celulite orbitária bilateral: relato de caso
1 Recebido em 11/03/2008 Aprovado em 09/06/2008 ISSN 1679-5458 (vers o impressa)ISSN 1808-5210 (vers o online) Rev. Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-fac., , , p. 39 - 44, orbit ria bilateral: relato de casoBilateral Orbital Cellulitis: a Case ReportCarlos Umberto PereiraI Jos Carlos PereiraIIEdvaldo D ria dos AnjosIIRicardo Wathson Feitosa de CarvalhoIIIA rtur de Oliveira RibeiroIVRui Medeiros J niorVIM dico. PhD. Professor Adjunto da Disciplina de Neurocirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Sergipe UFS - Aracaju/SEIIC irurgi o-Dentista. MsC. Prof. da Disciplina de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial da Faculdade de Odontologia da Univer-sidade Tiradentes UNIT - Aracaju/SEIIIC irurgi o-Dentista graduado pela Universidade Tiradentes UNIT - Aracaju/SEIVG raduando em Odontologia pela Universidade Federal de Sergipe UFS - Aracaju/SEVC irurgi o-Dentista graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN - Natal/RNRESUMO Celulite orbit ria o processo infeccioso dos tecidos orbit rios, de etiologia das mais variadas pos-s veis.
2 Uma afec o importante, devendo ser rapidamente diagnosticada e tratada em virtude do car ter progressivo, podendo comprometer estruturas anat micas nobres e, em alguns casos, levar o indiv duo a bito. O presente estudo teve como objetivo relatar um caso raro de Celulite orbit ria bilateral e fazer uma revis o breve da literatura, enfatizando pontos importantes no tocante s caracter sticas cl nico-imaginol gicas e discutindo, de forma clara e sucinta, a conduta adotada no caso em quest o, ressaltando a import ncia do tratamento precoce. Descritores: Celulite Orbit ria/terapia. Celulite Orbit ria/complica es. Antibi ticos/terapia. ABSTRACT Orbital cellulitis the infectious process of the orbital tissues, of extremely varied etiology. It is an important pathosis, which should be promptly diagnosed and treated by virtue of its progressive nature, for it may compromise major anatomic structures and even, in some cases, lead to death.
3 The aim of the present study is therefore to report a rare case of bilateral orbital cellulitis and make a review of the literature, emphasizing the clinical and imaging features of the lesion, the management adopted and the importance of early : Orbital Cellulitis/therapy. Orbital Cellulitis/complications. O O globo ocular e a rbita s o frequentemente afetados por processos inflamat rios e infecciosos percebidos por aqueles que executam cirurgia facial1. Denomina-se Celulite orbit ria o processo infeccioso dos tecidos orbit rios de etiologia variada (bacteria-na, viral, f ngica, etc)2. uma condi o grave que comumente ocorre secundariamente a uma infec o dos seios maxilar e etmoidal3 e que, se n o tratada, pode levar a complica es importantes, como trom-bose do seio cavernoso, amaurose, meningite ou abscesso cerebral4, Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-fac., , , p. 39 - 44, et Cinco est gios classificam bem este tipo de acometimento patol gico.
4 O est gio 1, Celulite pr -septal, a infec o confinada s p lpebras e ao tecido mole periocular, anterior ao septo orbital. A rbita pode mostrar-se inflamada secundariamente, mas n o diretamente infectada. O est gio 2 a Celulite orbital com proptose em que s o encontradas limita es nos movimentos e poss vel comprometi-mento do nervo ptico. No est gio 3, observa-se um abscesso subperi stico. O 4 a Celulite orbital com um verdadeiro abscesso orbital dentro da gordura orbital, e o est gio 5 ocorre quando se verifica dis-semina o retro-orbital da infec o para dentro do seio cavernoso1. O exame f sico demonstra proptose junto a edema periorbit rio, que tamb m eritemato-so, restri o da motricidade e dor tentativa de movimento ocular. Comumente, h leucocitose e febre. Com o aumento da press o na cavidade orbit ria, a fun o do nervo ptico pode deteriorar-se rapidamente, causando d ficit visual6,7.
5 Al m da anamnese e do exame f sico, exames de imagem se fazem fundamentais para uma ideal localiza o e delimita o loco-regional do processo infeccioso, permitindo n o s a classifica o como o estadia-mento da evolu o do quadro cl nico8. Assim, tanto a tomografia computadorizada e/ou a resson ncia nuclear magn tica (RNM) devem ser utilizadas para uma acurada avalia o. Havendo a hip tese de Celulite orbit ria de origem bacteriana, tratamento imediato com anti-bioticoterapia endovenosa deve ser institu do, a fim de se evitar a progress o da infec o e complica- es neurol gicas, potencialmente letais. Em geral, utilizam-se antibi ticos de largo espectro9. Por conseguinte, o presente estudo tem como objetivo relatar o caso de Celulite orbit ria bila-teral com evolu o a partir de um trauma, abordando aspectos importantes, como caracter sticas cl nico-imaginol gicas da les o, a conduta e o tratamento DO CASO Paciente de 36 anos, g nero masculino, fe-oderma, de proced ncia interiorana, deu entrada no servi o de emerg ncia do Hospital Governador Jo o Alves Filho (HGJAF), Aracaju-SE, Brasil, v tima de aci-dente motocicl stico, sem hist ria de epis dio em tico e/ou inconsci ncia.
6 Inicialmente avaliado atrav s do protocolo do Advanced Trauma Life Support (ATLS), descartou-se a exist ncia de les es politraum ticas, sendo solicitada avalia o do Servi o de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial. Ao exame f sico facial, observou-se ferimento corto-contuso em p lpebra superior direita, edema e ferimento l cero-contuso em superc lio esquerdo, sem sinais cl nicos e radiogr ficos de fraturas maxilo-faciais (Figura 1). Foi realizada antissepsia e sutura dos ferimentos. Na oportunidade, foi realizada profi-laxia antitet nica (VAT 0,5 ml IM). Para uso domiciliar foram prescritos Nimesulida 100mg de 12/12 horas e Dipirona S dica 500mg de 06/06, por 3 e 2 dias, respectivamente. Aproximadamente ap s 20 dias do atendi-mento inicial, o paciente retornou com queixa de aumento de volume nos olhos e febre, com evolu o de aproximadamente 12 dias. Relatava epis dios frequentes de cefaleia e n useas, sem d ficits neu-rol gicos focais.
7 No momento da segunda admiss o, apresentava-se consciente, orientado, deambulando, eupneico, normotenso, acian tico, por m febril (38,5 C). Figura 1. Exame f sico facial em vista frontal, no primeiro Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-fac., , , p. 39 - 44, et Ao exame f sico local, observou-se aumento de volume em regi o periorbital, bilateralmente, consistente e sintom tica palpa o, com drenagem purulenta espont nea por meio da p lpebra supe-rior direita (Figuras 2a, 2b, 2c). A acuidade visual apresentava-se preservada, por m com restri o e dor movimenta o dos globos 2. Aumento de volume em regi o periorbital, bilateralmente, com drenagem purulenta espon-t nea, em vista frontal (a), lateral esquerda (b) e direita (c). Foram solicitados exames hematol gicos e imaginol gicos, iniciando antibioticoterapia emp rica endovenosa, com oxacilina 2g associada ceftriaxona 1g. Os exames hematol gicos revelaram leucocitose.
8 As imagens obtidas atrav s de resson ncia nuclear magn tica apresentavam les o intracraniana, unilocu-lar, sagital, localizada na regi o frontal, de contornos n tidos, com conte do hipointenso em T1, hiperintenso em T2 e isointenso no FLAIR (Figura 3).Figura 3. Les o intracraniana, unilocular, sagital, localizada na regi o frontal RNM. Sob anestesia geral, foi realizada cranioto-mia e drenagem neurocir rgica (Figura 4a, 4b). No p s-operat rio, evoluiu com estabilidade, regress o progressiva do processo infeccioso, recebendo alta hospitalar ap s 14 dias (Figuras 5 e 6), n o sendo observados sinais de processo infeccioso e d ficit neurol gico, apresentando acuidade visual e movi-mento oculare 4 (a,b). Craniotomia e drenagem neuroci-r 5. Ferida cir rgica em curso cicatricial sem altera 6. P s-operat rio de 14 dias, sem sinais de processo Cir. Traumatol. Buco-Maxilo-fac., , , p. 39 - 44, et O A Celulite orbit ria comumente ocorre se-cundariamente a uma infec o do seio maxilar e etmoidal em 60 a 90% dos casos3,5.
9 Outras causas menos comuns, como traumas e manifesta es odontog nicas, tamb m est o associadas9. No pre-sente caso, o paciente n o apresentava quadro de sinusite no momento do primeiro atendimento, tendo desenvolvido a infec o orbit ria posteriormente, decorrente de ferimentos periorbitais que evolu ram com infec o. Em virtude de a peri rbita estar pouco in-serida ao osso, ela pode ser elevada facilmente por ac mulos de pus na regi o, tornando o edema fre-quente nesses casos. Os dados cl nicos encontrados foram similares aos da literatura casos de Celulite orbit ria, costuma haver pre-sen a de quadro febril e leucocitose, e as fun es do nervo ptico podem ficar comprometidas. Trombose do seio cavernoso com cefaleia importante, n usea, v mito e toxicemia s o outras manifesta es que podem ocorrer6,7. Topazian et descreveram uma peculiar classifica o para as infec es orbitais que avalia alguns aspectos, como: a localiza o do processo, o envolvimento de estruturas anat micas adjacentes bem como o comprometimento da acuidade e mo-tricidade visual.
10 O caso descrito encontrava-se no est gio 2, em que se pode notar proptose e limita es nos movimentos oculares. Os exames imaginol gicos juntamente com os dados da anamnese e cl nicos s o de fundamental im-port ncia para o correto e preciso diagn stico8. Alguns autores2,4,8 referem o uso da tomografia computadori-zada como exame adequado no diagn stico da Celulite orbit ria, ao mostrar, claramente, a localiza o e a ex-tens o do processo infeccioso. Utilizou-se, no presente estudo, a imagem por resson ncia nuclear magn tica, por esta ser mais precisa para demonstrar abscesso orbital, corpos estranhos org nicos, morfologia dos tecidos moles e les es na rea do seio cavernoso. Uma vez cogitada a hip tese de Celulite orbi-t ria de origem bacteriana, tratamento imediato com antibioticoterapia endovenosa deve ser institu do, a fim de se evitar a progress o da infec o e complica es neurol gicas, potencialmente letais2,9.