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A pesquisa narrativa: uma introdução - SciELO

A pesquisa narrativa: uma introdu oVera L cia Menezes de Oliveira e PaivaUFMG/CNPq/FAPEMIGA Revista Brasileira de Ling stica Aplica (RBLA), em seu oitavo anode exist ncia, passa agora a ser financiada pela FAPEMIG com a contrapartidada Faculdade de Letras e do Programa de P s-Gradua o em EstudosLing sticos da UFMG, que lhe d o todo o apoio de secretaria e comunica Revista, avaliada pela CAPES como Qualis A, est na base de dados dos seguintesindexadores: MLA, Linguistics Abstracts, e Language Behavior. Todos osn meros podem ser acessados na p gina eletr nica e a vers o impressa continua sendo distribu da aos s cios que seencontram em dia com as anuidades da n mero tem por tema a pesquisa narrativa e, ao introduzi-lo,entendo ser importante responder a duas perguntas. O que uma narrativa?O que pesquisa narrativa?O que uma narrativa?Muitos s o os significados de narrativa que circulam entre n s: umahist ria; algo contado ou recontado; um relato de um evento real ou fict cio;um relato de uma s rie de eventos conectados em seq ncia; um relato deacontecimentos; uma seq ncia de eventos passados; uma s rie de eventosl gicos e cronol gicos, etc.

A pesquisa narrativa: uma introdução Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva UFMG/CNPq/FAPEMIG A Revista Brasileira de Lingüística Aplica …

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1 A pesquisa narrativa: uma introdu oVera L cia Menezes de Oliveira e PaivaUFMG/CNPq/FAPEMIGA Revista Brasileira de Ling stica Aplica (RBLA), em seu oitavo anode exist ncia, passa agora a ser financiada pela FAPEMIG com a contrapartidada Faculdade de Letras e do Programa de P s-Gradua o em EstudosLing sticos da UFMG, que lhe d o todo o apoio de secretaria e comunica Revista, avaliada pela CAPES como Qualis A, est na base de dados dos seguintesindexadores: MLA, Linguistics Abstracts, e Language Behavior. Todos osn meros podem ser acessados na p gina eletr nica e a vers o impressa continua sendo distribu da aos s cios que seencontram em dia com as anuidades da n mero tem por tema a pesquisa narrativa e, ao introduzi-lo,entendo ser importante responder a duas perguntas. O que uma narrativa?O que pesquisa narrativa?O que uma narrativa?Muitos s o os significados de narrativa que circulam entre n s: umahist ria; algo contado ou recontado; um relato de um evento real ou fict cio;um relato de uma s rie de eventos conectados em seq ncia; um relato deacontecimentos; uma seq ncia de eventos passados; uma s rie de eventosl gicos e cronol gicos, etc.

2 As narrativas circulam em textos orais, escritos evisuais e t m sido amplamente investigadas na rea de Ling stica , por exemplo, a edi o especial do Hong Kong Journal of AppliedLinguistics, editado por Benson e Nunan em 2002 e o livro organizado pelosmesmos autores em 2005. Veja tamb m o livro organizado por Kalaja,Menezes e Barcelos (2008), objeto de resenha neste Todorov (1979, p. 138), uma narrativa ideal come a por umasitua o est vel que uma for a qualquer vem perturbar. Disso resulta um estadode desequil brio; pela a o de uma for a dirigida em sentido inverso, oequil brio restabelecido; o segundo equil brio semelhante ao primeiro, masos dois nunca s o id nticos. Muitas das narrativas que integram os diversosartigos mostram com clareza as instabilidades, as mudan as e os novosequil brios sempre diferentes dos estados Bruner (2002, p. 46), uma narrativa composta por umaseq encia singular de eventos, estados mentais, ocorr ncias envolvendo sereshumanos como personagens ou autores e acrescenta, mais frente que elapode ser real ou imagin ria sem perder seu poder como hist ria ( ).

3 Em sentido oposto ao chomskiano, Bruner (2002, ), sem diminuir aimport ncia da sintaxe, entende que o ser humano ingressa na linguagem com aptid es pr -ling sticas para o significado . Ele sintetiza dizendo que n s viemos inicialmente equipados, se n o com uma teoria da mente,certamente com um conjunto de predisposi es para interpretar o mundosocial de uma forma particular e para agir sobre as nossas interpreta es . Essasinterpreta es s o da maior relev ncia para pesquisadores que querem dar vozao pesquisado e desenvolver seus estudos em uma perspectiva mica ,o que o caso dos estudos que comp em este n mero caso desta edi o da RBLA, as narrativas presentes em todos ostextos podem ser identificadas como relatos de experi ncias pessoais. ParaLabov e Waletzky (1967, ), que trabalharam com narrativas orais, anarrativa de experi ncia pessoal um m todo de recapitula o de experi nciaspassadas combinando uma seq ncia verbal de ora es com a seq ncia deeventos realmente acontecidos 1.

4 Em trabalho posterior, Labov (1997) definenarrativa de uma experi ncia pessoal, como o relato de uma seq ncia deeventos que entraram para a biografia do falante por meio de uma seq nciade ora es que correspondem ordem dos eventos originais . Assim, anarrativa deixa de ser vista como um mero recontar de eventos para serentendida como algo que entrou na biografia do falante e que avaliadoemocional e sociamente, transformando-se em experi ncia. Labov entende aavalia o como informa es a respeito das conseq ncias do evento sobre asnecessidades e desejos humanos .Labov reconhece que o trabalho de 1967 lidava com a organiza otemporal e avalia o e que a discuss o sobre narrativa ou outros eventos defala, raramente, permitia provar alguma coisa. Era, essencialmente, um trabalhohermen utico . Nesse novo texto, ele entende que o mais importante n o focar a produ o da fala ou fazer experimentos controlados, mas sim entender1 Essa e todas as outras tradu es s o de minha poder da narrativa na audi ncia.

5 Essa observa o de Labov de singularimport ncia para entendermos os artigos reunidos neste volume. As narrativasque servem de base aos diversos estudos n o s o analisadas em fun o de suaorganiza o textual, mas sim da organiza o da experi ncia humana (ver Bruner2002), da aprecia o de si mesmo e de seu fazer como aluno ou ressalta Polkinghorne, o objetivo de se estudar o significado narrativo explicitar as opera es que produzem um tipo particular de significado, eretirar as implica es que esse significado tem para a exist ncia o que pesquisa narrativa?V rias reas do conhecimento v m investigando a realidade reconstru daatrav s de narrativas, al m da hist ria e da literatura, ber o natural da citamos Bruner, na educa o, e Labov e Waletzky na ling stica, para apontarapenas dois exemplos mais pr ximos da ling stica aplicada, mas podemosencontrar refer ncias pesquisa narrativa em v rios outros campos doconhecimento: na semi tica, na medicina, na enfermagem, na psicologia, napsican lise, na comunica o, na sociologia, na tecnologia da informa o, naantropologia, na filosofia, na arte, estudos gays, estudos feministas, etc.

6 Bastausar qualquer mecanismo de busca na Internet para se ter acesso a refer nciasde pesquisa narrativa nessas e em outras e Connely (2000, ) definem pesquisa narrativa como uma forma de entender a experi ncia em um processo de colabora o entrepesquisador e pesquisado. A pesquisa narrativa mais comum pode ser descritacomo uma metodologia que consiste na coleta de hist rias sobre determinadotema onde o investigador encontrar informa es para entender determinadofen meno. As hist rias podem ser obtidas por meio de v rios m todos:entrevistas, di rios, autobiografias, grava o de narrativas orais, narrativasescritas, e notas de campo. Outra forma de fazer pesquisa narrativa descritapor Polkinghorne (1995, p. 1) como an lise narrativa, um tipo de estudo quere ne eventos e acontecimentos e produz uma hist ria explicativa. Em s ntese,a pesquisa narrativa usa as narrativas tanto como m todo quanto comofen meno do estudo (PINNEGAR e DAYNES, 2007).

7 Neste volume, amaioria dos cap tulos se dedica an lise de narrativas, mas os artigos 9, de VianJr , e 4 de Vassallo e Telles s o bons exemplos de an lise , Tuval-Mashiach e Zilber (1998) apontam duas dimens es dapesquisa narrativa: a hol stica em oposi o categorial e a de conte do emoposi o da forma. As autoras explicam que a primeira dimens o se refere unidade de an lise, ou seja, se s o analisados excertos ou se a an lise foca umanarrativa integral. A segunda dimens o diz respeito ao conte do, se a pesquisase concentra no conte do integral da narrativa ou se busca significadosespec ficos. Assim s o poss veis 4 combina es? Conte do hol stico,conte do categorial, forma hol stica e forma categorial. Tendo essas quatroclassifica es como refer ncia, podemos dividir os artigos desse volume daseguinte forma:Tipo de PesquisaArtigosConte do hol stico4, 5, 9 Conte do categorial2, 3, 6, 7, 8 Forma hol stica1 Forma categorial natural que a maioria dos artigos se dedique a an lise do conte do, poisa rea de ling stica aplicada se caracteriza pelos estudos da linguagem comopr tica social.

8 O artigo 1 de Rodrigues Junior pode ser classificado como umapesquisa de forma hol stica tendo como alvo um modelo de an lise que levaem considera o a estrutura gen rica de narrativas de aprendizagem deaprendizes de ingl s. No entanto, relevante ressaltar que ao optar pelaling stica sist mica, o autor n o desvincula o significado da artigos 4, 5 e 9 apresentam uma abordagem de conte do hol stico. Noartigo 4, Vassalo e Telles analisam suas pr prias hist rias de aprendizagem, namodalidade Tandem, onde a primeira autora aprende portugu s e o segundoestuda italiano. No artigo 5, Barkhuizen e Benson relatam como levaram professoresa refletir sobre o processo de escrita de narrativas antes e depois de uma disciplinaquando refletiam sobre um curso de forma o de professor. J Vian Jr., noartigo 9, desenvolve uma narrativa de experi ncias vividas em seu percursoprofissional ao planejar nove cursos instrumentais de produ o oral em ingl artigos 2, 3, 6, 7, 8 apresentam estudos de conte do categorial.

9 Noartigo 2, de Arag o, o interesse do pesquisador investigar as emo es deaprendizes de ingl s e no 3, Paiva identifica, em excertos de narrativas, aspectosdo processo de aquisi o de segunda l ngua entendido como sistemacomplexo. No artigo 6, Romero investiga tr s categorias o afeto, ojulgamento e aprecia o com o objetivo de entender como futurasprofessoras se posicionam ante a l ngua inglesa e como avaliam professores eo pr prio processo de aprendizagem. Em 7, Borges utiliza excertos de narrativasde professores de quatro l nguas estrangeiras para identificar refer ncias sabordagens de ensino de l nguas estrangeiras e as influ ncias dessas lembran asno uso de determinada abordagem na sala de aula. Finalmente, no artigo 8 deMalat r, o foco a identidade profissional de uma professora de ingl ler os artigos e suas narrativas poss vel perceber como os narradoresconstroem sentido a partir de suas experi ncias aos lhes dar a forma denarrativas.

10 A partir de uma experi ncia desordenada, os narradores criamenredos, e imp em ordem a um fluxo de experi ncias ao dar sentido aacontecimentos e a es em sua vida. (RIESSMAN, 1993).Quem faz pesquisa narrativa sempre confrontado com a indaga o seo narrador est sendo verdadeiro. Isso nos leva, inevitavelmente, a outrapergunta. Existe realidade ou ela tamb m uma constru o? Riessman (1993,p. 8) alerta que os pesquisadores n o t m acesso direto experi ncia do s lidamos com representa es amb guas dessa experi ncia fala, texto,intera o, e interpreta o. N o poss vel ser neutro e .Neste n mero especial da RBLA, o leitor encontrar narrativas deprofessores e alunos e diversas abordagens de an lise. Como cada texto est aberto a v rias possibilidades de leitura, esperamos que as verdades constru das pelas narrativas de experi ncias de ensinar e aprender e pelasnarrativas dos pesquisadores aqui reunidos possam produzir, em colabora ocom cada leitor, novos sentidos para as quest es ligadas ao ensino e aprendizagem de l nguas.