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o conceito de hegemoniA: de grAmsci A lAclAu e …

Lua Nova, S o Paulo, 80: 71-96, 2010o conceito de hegemoniA: de grAmsci A lAclAu e mouffeAna Rodrigues Cavalcanti AlvesA no o de hegemonia foi criada no seio da tradi o mar-xista para pensar as diversas configura es sociais que se apresentavam em distintos pontos no tempo e no espa o. Apesar de ter suas origens na social-democracia russa e em L nin, grAmsci que apresenta uma no o de hegemonia mais elaborada e adequada para pensar as rela es sociais, sem cair no materialismo vulgar e no idealismo encontra-dos na tradi o. A no o de hegemonia prop e uma nova rela o entre estrutura e superestrutura e tenta se distanciar da determina o da primeira sobre a segunda, mostrando a centralidade das superestruturas na an lise das socieda-des avan adas.

72 O conceito de hegemonia: de Gramsci a Laclau e Mouffe Lua Nova, São Paulo, 80: 71-96, 2010 capitalismo tardio e observar como se desenvolvem as dispu-tas hegemônicas nesse novo espaço social.

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1 Lua Nova, S o Paulo, 80: 71-96, 2010o conceito de hegemoniA: de grAmsci A lAclAu e mouffeAna Rodrigues Cavalcanti AlvesA no o de hegemonia foi criada no seio da tradi o mar-xista para pensar as diversas configura es sociais que se apresentavam em distintos pontos no tempo e no espa o. Apesar de ter suas origens na social-democracia russa e em L nin, grAmsci que apresenta uma no o de hegemonia mais elaborada e adequada para pensar as rela es sociais, sem cair no materialismo vulgar e no idealismo encontra-dos na tradi o. A no o de hegemonia prop e uma nova rela o entre estrutura e superestrutura e tenta se distanciar da determina o da primeira sobre a segunda, mostrando a centralidade das superestruturas na an lise das socieda-des avan adas.

2 Nesse contexto, a sociedade civil adquire um papel central, bem como a ideologia, que aparece como constitutiva das rela es sociais. Deste modo, uma poss vel tomada do poder e constru o de um novo bloco hist rico passa pela considera o da centralidade dessas categorias que, at ent o, eram ignoradas. Entretanto, nas ltimas d cadas surgiu uma nova abor-dagem da hegemonia que tem como objetivo expandir a no o gramsciana para pensar a configura o social do 719/29/10 2:40:54 PM72O conceito de hegemonia: de grAmsci a lAclAu e MouffeLua Nova, S o Paulo, 80: 71-96, 2010capitalismo tardio e observar como se desenvolvem as dispu-tas hegem nicas nesse novo espa o social.

3 Ernesto lAclAu e Chantal Mouffe, em Hegemonia e estrat gia socialista, aponta-ram os limites e ambiguidades da no o de hegemonia em grAmsci e formularam um novo conceito a partir da jun o da l gica pol tica gramsciana e um conjunto de categorias do p s-estruturalismo. Desse modo, o presente trabalho tem como objetivo central discutir o conceito de hegemonia em grAmsci e em lAclAu e Mouffe, apresentando as semelhan- as e diferen as das duas acordo com Anderson (1989), grAmsci est situado no momento de transi o entre a primeira gera o do mar-xismo e o marxismo ocidental1. O problema central que perpassa a tradi o do marxismo ocidental a tentativa de responder por que a revolu o prolet ria n o aconteceu no Ocidente e quais as condi es que favoreceram a eclos o de uma revolu o na R ssia.

4 grAmsci aponta as diferen as estruturais nas forma es sociais do Oriente e do Ocidente e a necessidade de adotar estrat gias pol ticas distintas das que foram adotadas na R ssia, j que o capitalismo avan- ado nos pa ses ocidentais possibilitou tamb m o fortaleci-mento das superestruturas (Coutinho, 1992). A partir destas reflex es, grAmsci elabora sua no o de hegemonia, sen-do considerado o te rico marxista que mais insistiu nessa quest o e que deu uma grande contribui o ao marxismo (Gruppi, 1978; Macciochi, 1976). A maior dificuldade de conquista do poder nas socie-dades capitalistas avan adas j havia sido observada por L nin e, muito embora ele nunca tenha falado diretamen-1 Esta segunda gera o do marxismo caracterizada principalmente pelo seu dis-tanciamento do proletariado e por uma postura mais acad mica e pr xima da universidade.

5 Importante enfatizar que grAmsci teve um afastamento for ado da vida pol tica, j que foi preso pelo governo Mussolini em 1926 devido sua ativi-dade pol tica como um dos fundadores e dirigente m ximo do Partido Comunista Italiano, bem como sua oposi o aberta ao 729/29/10 2:40:54 PM73 Ana Rodrigues Cavalcanti AlvesLua Nova, S o Paulo, 80: 71-96, 2010te sobre hegemonia, grAmsci atribui a ele a origem deste conceito e tem grande influ ncia em seu pensamento e em sua a o pol tica (Coutinho, 1992). Segundo Luciano Gruppi (1978, p. 1), o ponto de contato mais constante e mais enraizado de grAmsci com L nin seria o conceito de hegemonia.

6 Hugues Portelli (1977, p. 63) cita um artigo de Lucia-no Gruppi, Lenin e il concetto di egemonia , que chama a aten o para os pontos de aproxima o do conceito de hegemonia em grAmsci e L nin, como a sua base de classe, a sua organiza o intelectual, a necessidade de ampliar a base social da classe fundamental e a an lise da correla o de for as na disputa pela hegemonia. No entanto, Portelli aponta diferen as fundamentais nas no es de hegemonia destes autores. Enquanto L nin se refere apenas ditatu-ra do proletariado ao falar de hegemonia, enfatizando seu car ter coercitivo, grAmsci destaca a import ncia de formar uma classe dirigente que se mantenha pelo consentimen-to das massas e n o apenas pela for a coercitiva.

7 Ademais, grAmsci sublinha a import ncia da dire o cultural e ideo-l gica, o que considerado por Portelli como o maior pon-to de ruptura entre os dois autores; afinal, L nin insiste no car ter puramente pol tico da hegemonia. Nas palavras de Portelli (1977, p. 65), o problema essencial para ele [L nin] a derrubada, pela viol ncia, do aparelho de Estado: a sociedade pol tica o objetivo e, para atingi-lo, uma pr via hegemonia pol tica necess ria: hegemonia pol tica porque a sociedade pol tica mais importante, em suas preocupa es estrat gicas, do que a civil [..] grAmsci , ao contr rio, situa o terreno essencial da luta contra a classe dirigente na sociedade civil: o grupo que a controla hegem nico e a conquista da sociedade pol tica coroa essa hegemonia, estendendo-a ao conjunto do Estado (sociedade civil mais sociedade pol tica).

8 A 739/29/10 2:40:54 PM74O conceito de hegemonia: de grAmsci a lAclAu e MouffeLua Nova, S o Paulo, 80: 71-96, 2010hegemonia gramscista a primazia da sociedade civil sobre a sociedade pol tica. Apesar dessa diferen a fundamental, grAmsci tenta dar continuidade no o de hegemonia leninista a partir do princ pio te rico-pr tico que, segundo ele, foi a gran-de contribui o de L nin filosofia da pr xis, na medida em que fez progredir a doutrina e a pr tica pol tica. Deste modo, a consolida o de um aparato hegem nico remete necessidade de unifica o entre teoria e pr tica, formula- o de uma nova concep o do mundo.

9 grAmsci afirma que muito comum um determinado grupo social, que est numa situa o de subordina o com rela o a outro grupo, adotar a concep o do mundo deste, mesmo que ela esteja em contradi o com a sua atividade pr tica. Ademais, ele ressalta que esta concep o do mundo imposta mecanicamente pelo ambiente exterior desprovi-da de consci ncia cr tica e coer ncia, desagregada e oca-sional. Dessa ado o acr tica de uma concep o do mundo de outro grupo social, resulta um contraste entre o pensar e o agir e a coexist ncia de duas concep es do mundo, que se manifestam nas palavras e na a o efetiva. grAmsci (1978a, p.)

10 15) conclui, portanto, que n o se pode destacar a filosofia da pol tica; ao contr rio, pode-se demonstrar que a escolha e a cr tica de uma concep o de mundo s o, tam-b m elas, fatos pol ticos . Ele afirma que o problema de toda concep o do mun-do que se transformou em um movimento cultural, produ-zindo uma atividade pr tica, justamente conservar a uni-dade ideol gica de todo bloco social. A Igreja Cat lica, por exemplo, sempre lutou pela unidade doutrinal de toda a massa religiosa para que, em seu seio, os estratos intelec-tuais n o se destacassem dos homens simples e n o se for-massem duas religi es. Neste sentido, um movimento filo-s fico que pretenda ter alguma solidez cultural deve evitar 749/29/10 2:40:54 PM75 Ana Rodrigues Cavalcanti AlvesLua Nova, S o Paulo, 80: 71-96, 2010essa separa o entre os intelectuais e a massa.


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