Transcription of Êxtase (MDMA): efeitos farmacológicos e tóxicos, mecanismo ...
1 Revis o da Literatura xtase (MDMA): efeitos farmacol gicos e t xicos, mecanismo de a o e abordagem cl nica Ecstasy (MDMA): pharmacological and toxic effects, mechanism of action and clinical managementCa R o l i n e ad d i s o n Ca R v a l h o Xa v i eR1, Pa tR C i a le a l da n t a s lo b o2, Ma R t a Ma R i a d e FR a n a Fo n t e l e s3, si l v n i a Ma R i a Me n d e s d e va sC o nC e l o s4, gl a uC e so C o R Ro d e ba R Ro s vi a n a4, FR a nC i s C a Cl a Fl oR e n o d e so u s a41 Professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).2 Doutoranda em Farmacologia do Curso de P s-gradua o em Farmacologia do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Cear (UFC), Mestre em Cl nica Odontol gica pela Professora de Farmacologia Aplicada do Departamento de Farm cia da Professora de Farmacologia do Departamento de Fisiologia e Farmacologia da Faculdade de Medicina da : 18/09/2007 Aceito: 10/12/2007 ResumoContexto: O 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA, xtase) um derivado da anfetamina, cujo consumo por jovens tem aumentado.
2 Objetivos: Conduzir uma revis o de literatura sobre os aspectos farmacol gicos e fisiopato-l gicos do MDMA, incluindo o mecanismo de a o que possa explicar os efeitos neurot xicos e a toxicidade aguda e a longo prazo. M todos: Revis o da literatura usando as palavras-chave: 3,4-methylenedioxymethamphetamine, ecstasy, neurotoxicity, intoxication, drug abuse, por interm dio do MEDLINE e LILACS. A busca incluiu todos os artigos publicados no per odo entre 1985 e 2007. Resultados: Ainda existem muitas quest es sem respostas sobre a farmacologia do xtase e a fisiopatologia dos efeitos t xicos dessa subst ncia. A simples descri o do mecanismo de a o insuficiente para explicar todos os efeitos induzidos pelo xtase. O mecanismo exato respons vel por mediar os efeitos t xicos do MDMA sobre os neur nios da serotonina precisa ser elucidado. Conclus es: Existem poucas informa es na literatura sobre a farmacologia e o mecanismo de a o do MDMA que possam explicar os efeitos neurot xicos e outros efeitos fisiopatol gicos.
3 S o necess rios mais estudos para que o profissional de sa de possa obter informa es e conhecimentos a fim de combater os efeitos terr veis do xtase na popula o jovem vulner vel. Xavier, et al. / Rev. Psiq. Cl n 35 (3); 96-103, 2008 Palavras-chave: 3,4-metilenodioximetanfetamina, xtase, neurotoxicidade, intoxica o, abuso de drogas. AbstractBackground: The consumption of the amphetamine derivative 3,4-methylenedioxymethamphetamine (MDMA, ecstasy) by young people increased in the past years. Objectives: To conduct a literature review on the pharmacology of MDMA and particularly with respect to the putative mechanism of action implicated in the acute and long-term toxicity and neurotoxic effects. Methods: A literature review using the key words: 3,4-methylenedioxymethamphetamine, ecstasy, neurotoxicity, intoxication, abuse drugs was performed in the databases MEDLINE and LILACS. The search covered all articles published between 1985 and 2007.
4 Results: There were still many unanswered questions regarding the pharmacology of ecstasy and the pathophysiology of its toxic effects. The fundamental mechanism of action is insufficient to explain all effects induced by the drug. The exact mechanism responsible for mediating the toxic effects of MDMA on 5-HT neurons remain to be elucidated. Discussion: There is limited information in published literature about the underlying pharmacology and mechanism of action that could account for the neurotoxic and other phathophysiological effect of MDMA. Xavier, et al. / Rev. Psiq. Cl n 35 (3); 96-103, 2008 Key-words: 3,4-methylenedioxymethamphetamine, ecstasy, neurotoxicity, intoxication, drug o para correspond ncia: Caroline A. C. Xavier. Faculdade de Ci ncias da Sa de (FACS), Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Rua Atirador Miguel Ant nio da Silva Neto, S/N. Aeroporto 59607-360, Mossor , RN.
5 E-mail: et al. / Rev. Psiq. Cl n 35 (3); 96-103, 2008 Introdu o xtase o nome popular, ou de rua , dado subst ncia quimicamente identificada como 3,4-metilenodioxime-tanfetamina (MDMA). Muitos dos comprimidos de xtase cont m uma enorme variedade de componentes, incluindo 3,4-metilenodioxietilanfetamina (MDEA), 3,4-metilenodioxianfetamina (MDA), mas o principal cons-tituinte o 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA) (Figura 1), nome comumente usado nos estudos cien-t ficos para se referir ao xtase1. nos Estados Unidos, fazendo parte da Lista I do Conv nio de Subst ncias Psicotr picas, que inclui subst ncias com elevado potencial de abuso, sem benef cio terap utico e de uso inseguro, mesmo com super vis o m dica6. No Brasil considerada subst ncia de uso proscrito, definida pela Portaria da Vigil ncia Sanit ria do Minist rio da Sa de de n mero 344, de 12 de maio de realizados na Europa e nos Estados Uni-dos demonstraram que os adultos jovens conheciam e alguns faziam uso do MDMA.
6 Na maioria dos pa ses da Uni o Europ ia, 0,5% a 6% de adultos jovens entre 15 e 34 anos reportaram j ter usado xtase nos ltimos 12 meses7. Segundo Saunders5, 6% dos estudantes ingle-ses j fizeram uso do xtase, n mero que sobe para 13% entre os universit rios. No Reino Unido, 13% dos universit rios j foram encontrados usando xtase8, mas segundo White et , tanto nessa regi o como nos Estados Unidos, o uso do xtase est recentemente estabilizado, ao contr rio de pa ses europeus, como a Fran a, onde o uso continua aumentando. Na Alemanha, por exemplo, o xtase uma das subst ncias il citas de maior prefer ncia entre os jovens, somente perdendo para a maconha, e na Austr lia a terceira subst ncia il cita mais Brasil, em um estudo que comparou as preva-l ncias de uso de diversas drogas entre estudantes de gradua o da Universidade de S o Paulo (USP), no per odo compreendido entre 1996 e 2001, obser vou-se um aumento do uso experimental e regular de coca na, crack, anfetaminas e inalantes.
7 As drogas que mostra-ram aumento significativo durante a vida foram lcool, tabaco, maconha, inalantes, alucin genos, anfetaminas, anticolin rgicos, barbit ricos e drogas il citas em ge-ral10. Estudos sobre o uso do xtase no Brasil ainda s o escassos, mas alguns dados indicam que o consumo do MDMA no pa s tem aumentado, considerando, por exemplo, o elevado n mero de apreens es de compri-midos do xtase, assim como a descoberta do primeiro laborat rio clandestino para a s ntese do MDMA, na cidade de S o Baptista et , o uso do xtase na cidade de S o Paulo e imedia es ganhou relev ncia ao longo da d cada de 1990, em clubes noturnos e raves, ao som de m sica eletr nica. Os usu rios s o jovens adultos, com boa forma o escolar, inseridos no mercado de trabalho, pertencentes s classes sociais privilegiadas, sendo poliusu rios de drogas. Quanto ao padr o de uso da droga, obser varam-se dois perfis de usu rios, gera o rave , usu rios mais recentes, que iniciaram o uso com o surgimento das megaraves no final da d cada de 1990, e os chamados filhos do Hell s Club , usu rios mais antigos (in cio da d cada de 1990).
8 Em outro estudo13, procurou-se identificar os padr es e efeitos do MDMA entre usu rios da cidade de S o Paulo. Demonstrou-se que, dos 52 indiv duos entrevis-tados, 61,6% usavam xtase pelo menos uma vez por semana e que o uso ocorria freq entemente na compa-Figura 1. Estrutura qu mica do mDmA ( xtase), mDEA, mDA e MDMA um composto derivado da metanfetami-na, que apresenta propriedades estimulantes, derivadas das anfetaminas, e alucin genas, derivadas da mescali-na2. O MDMA interfere em v rios neurotransmissores causando libera o de serotonina (5-hidroxitriptamina), dopamina e norepinefrina no sistema ner voso central3, os quais est o envolvidos no controle do humor, ter-morregula o, sono, apetite e no controle do sistema ner voso aut nomo1,3. A figura 1 mostra a estrutura qu mica desses importantes neurotransmissores. O MDMA foi sintetizado e patenteado pelo laborat -rio alem o Merck, em 1912, como inibidor do apetite, mas n o se tornou comercialmente vi vel principalmen-te em raz o de v rios efeitos adversos.
9 Em 1950, ressur-giu como m todo para reduzir a inibi o em pacientes submetidos psican lise, atuando como elevador do estado de nimo e complemento nas psicoterapias4. Em 1953, o MDMA reapareceu nos Estados Unidos, quando o ex rcito americano testou in meras subst ncias com fins militares5. O per odo compreendido entre os anos de 1977 e 1984 ficou conhecido como a poca urea do xtase2. Segundo Saunders5, alguns terapeutas reconheciam que o MDMA era uma poderosa ferramenta, considerada a penicilina para a alma. Mas, em 1985, o MDMA tornou-se restrito Serotonina (5-HT)mDmAmDEAmDADopaminanorepinefrinaHO HOOHHOHOHOHnCH3nH2nH2CH3nHCH3CH3nHC2H5nH 2nH2 OOOOOO98 Xavier, et al. / Rev. Psiq. Cl n 35 (3); 96-103, 2008nhia de v rias pessoas (63%), em ambientes ligados ao prazer noturno, como raves (78,8%). Os efeitos atribu dos ao xtase foram, principalmente, positivos (felicidade, empatia, sensa o de saciedade e energia).
10 Embora os efeitos do xtase percebidos pelos usu -rios sejam predominantemente positivos, h in meros relatos de rea es adversas e mortes relacionadas sua ingest o14,15. Com base nas considera es anteriores, o objetivo deste estudo realizar uma revis o da litera-tura m dico-cient fica sobre a farmacologia do xtase (MDMA), mostrando seus principais efeitos t xicos, mecanismo de a o e tratamento da intoxica o, bem como aler tar para a possibilidade de ocorr ncia de mortes relacionadas ingest o do MDMA. MetodologiaNeste estudo fez-se uma revis o bibliogr fica sobre o MDMA, mais conhecido como xtase , uma subst ncia de abuso em expans o entre os jovens. Descreveram-se a farmacocin tica do MDMA, os efeitos agudos e cr ni-cos, assim como a intoxica o grave. O mecanismo de a o foi relatado a fim de justificar os efeitos t xicos e as possibilidades terap uticas de reverter as principais complica es associadas ao uso do revis o sistem tica de 1985 at 2007 por meio do MEDLINE e LILACS, utilizando-se as seguintes palavras-chaves: 3,4-methylenedioxymethamphetamine (MDMA), ecstasy, neurotoxicity, intoxication, drug abu-se.