Transcription of História do Conceito de Saúde - scielo.br
1 Hist ria do Conceito de Sa dePHYSIS: Rev. Sa de Coletiva, Rio de Janeiro, 17(1):29-41, 200729 RESUMOOs conceitos de sa de e de doen a s o analisados em sua evolu o hist ricae em seu relacionamento com o contexto cultural, social, pol tico e econ mico,evidenciando a evolu o das id ias nessa rea da experi ncia : Sa de; doen a; cultura; hist em: 28/02 em: 15/03 ria do Conceito de Sa deMOACYR SCLIAR 30 Moacyr ScliarPHYSIS: Rev. Sa de Coletiva, Rio de Janeiro, 17(1):29-41, 2007O Conceito de sa de reflete a conjuntura social, econ mica, pol tica ecultural. Ou seja: sa de n o representa a mesma coisa para todas as da poca, do lugar, da classe social. Depender de valoresindividuais, depender de concep es cient ficas, religiosas, filos ficas. Omesmo, ali s, pode ser dito das doen as. Aquilo que considerado doen avaria muito. Houve poca em que masturba o era considerada uma condutapatol gica capaz de resultar em desnutri o (por perda da prote na contida noesperma) e em dist rbios mentais.
2 A masturba o era tratada por dieta, porinfibula o, pela imobiliza o do paciente , por aparelhos el tricos que davamchoque quando o p nis era manipulado e at pela abla o da genit lia. Houve poca, tamb m, em que o desejo de fuga dos escravos era consideradoenfermidade mental: a drapetomania (do grego drapetes, escravo). O diagn sticofoi proposto em 1851 por Samuel A. Cartwright, m dico do estado da Louisiana,no escravagista sul dos Estados Unidos. O tratamento proposto era o do a oite,tamb m aplic vel disestesia eti pica , outro diagn stico do doutor Cartwright,este explicando a falta de motiva o para o trabalho entre os negros ou imagin ria, a doen a, e sobretudo a doen a transmiss vel, umantigo acompanhante da esp cie humana, como o revelam pesquisaspaleontol gicas. Assim, m mias eg pcias apresentam sinais de doen a(exemplo: a var ola do fara Rams s V). N o de admirar que desde muitocedo a Humanidade se tenha empenhado em enfrentar essa amea a, e dev rias formas, baseadas em diferentes conceitos do que vem a ser a doen a(e a sa de).
3 Assim, a concep o m gico-religiosa partia, e parte, do princ piode que a doen a resulta da a o de for as alheias ao organismo que neste seintroduzem por causa do pecado ou de maldi o. Para os antigos hebreus, adoen a n o era necessariamente devida a o de dem nios, ou de mausesp ritos, mas representava, de qualquer modo, um sinal da c lera divina,diante dos pecados humanos. Deus tamb m o Grande M dico: Eu sou oSenhor, e sa de que te trago ( xodo 15, 26); De Deus vem toda a cura (Eclesiastes, 38, 1-9).A doen a era sinal de desobedi ncia ao mandamento divino. Aenfermidade proclamava o pecado, quase sempre em forma vis vel, como nocaso da lepra Trata-se de doen a contagiosa, que sugere, portanto, contatoentre corpos humanos, contato que pode ter evidentes conota es Lev tico det m-se longamente na maneira de diagnosticar a lepra; mas n ofaz uma abordagem similar para o tratamento. Em primeiro lugar, porque taltratamento n o estava dispon vel; em segundo, porque a lepra podia ser doen a,Hist ria do Conceito de Sa dePHYSIS: Rev.
4 Sa de Coletiva, Rio de Janeiro, 17(1):29-41, 200731mas era tamb m, e sobretudo, um pecado. O doente era isolado at a cura, umprocedimento que o cristianismo manter e ampliar : o leproso era consideradomorto e rezada a missa de corpo presente, ap s o que ele era proibido de tercontato com outras pessoas ou enviado para um lepros rio. Esse tipo deestabelecimento era muito comum na Idade M dia, em parte porque o r tulo delepra era freq ente, sem d vida abrangendo numerosas outras doen preceitos religiosos do juda smo expressam-se com freq nciaem leis diet ticas, que figuram, em especial, nos cinco primeiros livros daB blia (Tor , ou Pentateuco). Sua finalidade mais evidente a de manter acoes o grupal, acentuando as diferen as entre hebreus e outros povos doOriente M dio. Essas disposi es eram sistemas simb licos, destinados amanter a coes o do grupo e a diferencia o com outros grupos, mas podemter funcionado na preven o de doen as, sobretudo de doen as transmiss exemplo, um animal n o poderia ser abatido por pessoa que tivesse doen ade pele, o que faz sentido: les es de pele podem conter micr bios.
5 Moluscoseram proibidos, e dessa forma certas doen as, como a hepatite transmitidapor ostras, podiam ser evitadas. Isso n o significa que a preven o fosseexercida conscientemente; as causas das doen as infecciosas eramdesconhecidas. Seria muito dif cil, por exemplo, associar a carne de porco transmiss o da triquinose. Para isto h uma explica o ecol gica, por assimdizer. A cria o de su nos, no Oriente M dio, seria um contra-senso. Trata-sede uma regi o rida, sem a gua de que esses animais necessitam comoforma de manter seu equil brio t rmico. Al m disso, povos n mades teriamdificuldades em manter um animal que se move pouco, como o , ao contr rio dos bovinos, que servem como animal de tra o eque proporcionam leite, o su no s fornece a carne - uma lux ria, portanto,uma tenta o que era evitada pelo r gido dispositivo da outras culturas era o xam , o feiticeiro tribal, quem se encarregavade expulsar, mediante rituais, os maus esp ritos que se tinham apoderado dapessoa, causando doen a.
6 O objetivo reintegrar o doente ao universo total, doqual ele parte. Esse universo total n o algo inerte: ele vive e fala ; ummacrocorpo, do qual o Sol e a Lua s o os olhos, os ventos, a respira o, aspedras, os ossos (homologa o antropoc smica). A uni o do microcosmo que o corpo com o macrocosmo faz-se por meio do os ndios Sarrum , que vivem na regi o da fronteira entre Brasile Venezuela, o Conceito de morte por causa natural ou mesmo por acidente32 Moacyr ScliarPHYSIS: Rev. Sa de Coletiva, Rio de Janeiro, 17(1):29-41, 2007praticamente inexiste: sempre resulta da maldi o de um inimigo. Ou, ent o,conduta imprudente: se algu m come um animal tabu, o esp rito desse animalvinga-se provocando doen a e tarefa do xam convocar esp ritos capazes de erradicar o isso ele passa por um treinamento longo e rigoroso, com prolongadaabstin ncia sexual e alimentar; nesse per odo aprende as can es xaman sticase utiliza plantas com subst ncias alucin genas que s o chamarizes para osesp ritos capazes de combater a doen medicina grega representa uma importante inflex o na maneira deencarar a doen a.
7 Verdade que, na mitologia grega, v rias divindades estavamvinculadas sa de. Os gregos cultuavam, al m da divindade da medicina,Asclepius, ou Aesculapius (que mencionado como figura hist rica na Il ada),duas outras deusas, Higieia, a Sa de, e Panacea, a Cura. Ora, Higieia era umadas manifesta es de Athena, a deusa da raz o, e o seu culto, como sugere onome, representa uma valoriza o das pr ticas higi nicas; e se Panacearepresenta a id ia de que tudo pode ser curado - uma cren a basicamentem gica ou religiosa -, deve-se notar que a cura, para os gregos, era obtida pelouso de plantas e de m todos naturais, e n o apenas por procedimentos ritual vis o religiosa antecipa a entrada em cena de um importantepersonagem: o pai da Medicina, Hip crates de C s (460-377 ). Pouco sesabe sobre sua vida; poderia ser uma figura imagin ria, como tantas naAntig idade, mas h refer ncias sua exist ncia em textos de Plat o, S cratese Arist teles.
8 Os v rios escritos que lhe s o atribu dos, e que formam o CorpusHipocraticus, provavelmente foram o trabalho de v rias pessoas, talvez emum longo per odo de tempo. O importante que tais escritos traduzem umavis o racional da medicina, bem diferente da concep o m gico-religiosa antesdescrita. O texto intitulado A doen a sagrada come a com a seguinteafirma o: A doen a chamada sagrada n o , em minha opini o, mais divinaou mais sagrada que qualquer outra doen a; tem uma causa natural e suaorigem supostamente divina reflete a ignor ncia humana .Hip crates postulou a exist ncia de quatro fluidos (humores) principaisno corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. Desta forma, a sa de erabaseada no equil brio desses elementos. Ele via o homem como uma unidadeorganizada e entendia a doen a como uma desorganiza o desse estado. Aobra hipocr tica caracteriza-se pela valoriza o da observa o emp rica, comoo demonstram os casos cl nicos nela registrados, reveladores de uma vis oHist ria do Conceito de Sa dePHYSIS: Rev.
9 Sa de Coletiva, Rio de Janeiro, 17(1):29-41, 200733epidemiol gica do problema de sa de-enfermidade. A apoplexia, dizem essestextos, mais comum entre as idades de 40 e 60 anos; a t sica ocorre maisfreq entemente entre os 18 e os 35 anos. Essas observa es n o se limitavamao paciente em si, mas a seu ambiente. O texto conhecido como Ares, guas,lugares discute os fatores ambientais ligados doen a, defendendo um conceitoecol gico de sa emergir a id ia de miasma, emana es de regi es insalubrescapazes de causar doen as como a mal ria, muito comum no sul da Europa euma das causas da derrocada do Imp rio Romano. O nome, ali s, vem do latime significa maus ares ( bom lembrar que os romanos incorporam os princ piosda medicina grega).Galeno (129-199) revisitou a teoria humoral e ressaltou a import nciados quatro temperamentos no estado de sa de. Via a causa da doen a comoend gena, ou seja, estaria dentro do pr prio homem, em sua constitui o f sicaou em h bitos de vida que levassem ao desequil Oriente, a concep o de sa de e de doen a seguia, e segue, umrumo diferente, mas de certa forma an logo ao da concep o hipocr tica.
10 Fala-se de for as vitais que existem no corpo: quando funcionam de forma harmoniosa,h sa de; caso contr rio, sobrevem a doen a. As medidas terap uticas(acupuntura, ioga) t m por objetivo restaurar o normal fluxo de energia ( chi ,na China; prana , na ndia) no Idade M dia europ ia, a influ ncia da religi o crist manteve aconcep o da doen a como resultado do pecado e a cura como quest o de f ;o cuidado de doentes estava, em boa parte, entregue a ordens religiosas, queadministravam inclusive o hospital, institui o que o cristianismo desenvolveumuito, n o como um lugar de cura, mas de abrigo e de conforto para os , ao mesmo tempo, as id ias hipocr ticas se mantinham, atrav s datemperan a no comer e no beber, na conten o sexual e no controle das paix evitar o contra naturam vivere, viver contra a natureza. Oadvento da modernidade mudar essa concep o su o Paracelsus (1493-1541) afirmava que as doen as eramprovocadas por agentes externos ao organismo.