Transcription of Moçambique Pré-Colonial
1 Em 1975, ano da Independ ncia de Mo ambiqaue, o Fundo de Turismo, rg o do novo governo do pa s, fez publicar, para difus o internacional da imagem das na es que se livravam do jugo colonial europeu e que formavam um Estado soberano, o trabalho Pequena Hist ria de Mo ambique Pr -Colonial, produzido pelo escritor mo ambicano A. Rita-Ferreira. Esse trabalho me foi entregue como a outros jornalistas quando de uma de minhas estadas j em Maputo, outrora Louren o Marques, capital de Mo ambique. Imposs vel de publicar em jornal, na poca, guardei-o e cumpro a promessa antiga, divulgando-o quase trinta anos adiante, neste espa o cultural. Jos Luiz Pereira da Costa, 2005. 2. Por A. Rita Ferreira Fundo de Turismo de Mo ambique 1975, Ano da Independ ncia 3. INTRODU O. Embora de diversa proveni ncia e qualidade, relativamente abundante a documenta o ao dispor dos estudiosos que procuram dedicar-se.
2 Historiografia de Mo ambique. Mas para que possa ser convenientemente aproveitada torna-se indispens vel o seu conhecimento com suficiente pormenor. Como tamb m exige cuidadosa pondera o e infinita paci ncia quer a identifica o dos elementos sup rfluos e indignos de confian a quer a particulariza o das informa es respeitantes aos agrupamentos tnico- lingu sticos tradicionais. O escopo e as limita es tipogr ficas desta pequena compila o n o permitem que seja aqui inclu da a numerosa bibliografia em que se baseou. Por isso sugerimos aos leitores interessados a consulta da nossa Bibliografia Etnol gica de Mo ambique , embora compreenda apenas os trabalhos editados at 1954. Poder o, no entanto, encontrar refer ncias mais modernas no final das Mem rias do Instituto de Investiga o Cient fica de Mo ambique , s rie C, n.
3 8 e 11, respectivamente de e 1974, onde se encontram publicadas duas monografias da nossa autoria. Tamb m cont m refer ncias bibliogr ficas fundamentais outras duas obras nossas que se encontram j em fase de impress o: Mo ambique e o Complexo Mutapa-Rozwi e Povos de Mo ambique (Hist ria e Cultura) . Influenciados pela orienta o da moderna historiografia africana, concedemos especial aten o aos elementos at ao presente apurados sobre as circunst ncias em que, numa evolu o iniciada h cerca de dois mil anos, os bantos iniciaram o povoamento desta parcela do continente africano e se diversificaram tanto cultural como linguisticamente embora mantendo um ineg vel substrato comum. Nesta tarefa muito fomos auxiliados pelos escritos do j consider vel n mero de eruditos, tanto mo ambicanos como estrangeiros, que, em pocas mais recentes, v m procurando, por m todos sistem ticos, 4.
4 Objectivos e intensivos, reconstituir o passado dos povos africanos. A depend ncia em rela o bibliografia publicada, deu como resultado que as vicissitudes hist rias sejam, de um para outro grupo tnico-lingu stico, desenvolvidas com desigual relevo. Pode, por conseguinte, acontecer que etnias de somenos import ncia sejam tratadas mais desenvolvidamente do que outras de maior peso demogr fico. Mesmo assim, no que concerne quelas cuja hist ria deficientemente conhecida, evit mos dispersarmo-nos em pormenores irrelevantes. Mais til e honesto nos pareceu evidenciar a escassez e superficialidade das informa es dispon veis e, dessa maneira, estimular os futuros investigadores a concentrar nelas a sua aten o. Concomitantemente, os relatos mais desenvolvidos respeitantes a etnias que hajam sido objecto de estudos s rios e profundos ter o a vantagem de permitir que os potenciais pesquisadores efectuem confrontos e melhor saibam reconhecer os aspectos que mere am prioridade de esclarecimento.
5 Terminaremos com algumas informa es pr ticas: a) Usamos a palavra imp rio para designar um aglomerado de etnias, cultural e linguisticamente diversificadas, compulsivamente reunidas sob a gide de uma monarquia centralizada. Teremos assim Imp rio de Gaza , Imp rio Marave , Imp rio do Mwene Mutapa , etc. Preferiremos o termo confedera o , quando nessas grandes unidades pol ticas diminuir o inicial grau de coes o, actuando com maior ou menor independ ncia os seus diversos componentes, embora continuando a reconhecer a supremacia do original poder unificador. Quanto ao termo na o reserva-lo-emos para os aglomerados pol ticos que unificaram tribos de id ntica l ngua e cultura ou assimilaram efectivamente dentro da sua org nica numerosos elementos provenientes de outras etnias, como, por exemplo, a Na o Swazi.
6 B) Dentro de cada subgrupo, a mudan a de assunto marcada por um intervalo maior entre os par grafos, assinalado no centro por um asterisco. c) Na ortografia dos voc bulos africanos procur mos respeitar, mutatis mutandis, as recomenda es da reuni o ecum nica realizada em Louren o Marques de 23 a 24 de Outubro de 1968, com a presen a dos distintos 5. linguistas Professores Baumbach e Marivate. Embora se concentrasse no Ronga, foi este, tanto quanto sabemos, o primeiro esfor o colectivo v lido para resolver aquele problema complexo e at ent o oficialmente ignorado. As inova es mais importantes para os luso fofos dizem respeito . utiliza o exclusiva do x para representar essa fricativa. O h fica reservado para os sons aspirados e, dessa maneira, desaparece o ch. O som nasal nh passa a ser representado por ny.
7 Recorre-se tamb m consoante k e semi-vogal w. O AUTOR. 6. CAP TULO I. O POVOAMENTO BANTO E A IDADE DO FERRO. Em Mo ambique a arqueologia est longe de atingir desenvolvimento cient fico tal que autorize a formula o de hip teses sobre a cronologia da idade do ferro e do povoamento banto a ela associado. Entre os estudiosos locais justo destacar O. Roza de Oliveira, que tem investigado, mas, ao que supomos, sem conseguir obter datas pelo r dio- carbono, numerosas jazidas contendo restos de olaria e de fundi o de ferro, espalhadas por vasta rea da actual Prov ncia de Vila Pery. Mais recentemente, em 1967, o Centro de Estudos de Arqueologia da Associa o Acad mica de Mo ambique efectuou algumas escava es no litoral do Sul do Save e nos vales dos rios Umbel zi e Movene. At ao seu encerramento, em 1970, foram publicados cinco n meros de um boletim policopiado, contendo os n meros 2 e 3 algumas refer ncias Idade do Ferro e ao povoamento ao longo do litoral.
8 Estas car ncias apenas permitem extrair ila es sem s lidos fundamentos como as que se baseiam nas pinturas rupestres do tipo esquem tico, descritas por J. R. dos Santos Junior e outros autores, pinturas semelhantes s existentes na Z mbia, e que, como estas, se encontram provavelmente associadas a povos da Idade Antiga do Ferro. Para n o deixarmos o p blico mergulhado em completa ignor ncia sobre este assunto, temos, por conseguinte, que recorrer s investiga es levadas a efeito nos pa ses vizinhos por qualificados arque logos. Visando encurtar esta introdu o, concentrar-nos-emos quase exclusivamente na metalurgia e, em parte, na olaria, abstraindo - sem deixar aqui de acentuar a sua import ncia-os dados relativos dispers o da cria o de gado, origem das plantas alimentares pr -g micas, etc. Tamb m n o desenvolveremos aqui os obst culos levantados a estas migra es humanas e animais por doen as terr veis como as tripanosom ases.
9 7. Z MBIA. em Machili, na parte zambiana do Kalahari, que foi encontrada a mais antiga esta o da Idade Antiga do Ferro em toda a Africa Austral, com a data o de 96 - 212 d. C. Revelou apenas armas e utens lios simples: pontas para flechas e lan as; algumas facas, machados e enxadas. Um interessante s tio da Idade Antiga do Ferro foi descoberto na Prov ncia Oriental da Z mbia, em Makwe, abrigo rupestre perto da fronteira com Mo ambique. A olaria a ele associada tem menos afinidades com a sua contempor nea da restante Z mbia do que a t pica da Africa Oriental e da cultura ziwa da Rod sia e de Mo ambique. J. O. Vogel obteve provas da Idade do Ferro, datadas do s c. VIII, na camada mais antiga do s tio de Simbusenga, no Distrito de Kalomo, na Z mbia meridional. Mais recentemente, D. W. Phillipson escavou, na mesma regi o, os s tios de Thandwe, Kalamba e Kamnama.
10 Principalmente neste ltimo deparou com grande quantidade de olaria semelhante de Nkope, no Malawi, e, ainda, com provas de trabalho em ferro datadas do III ao V s culos d. C. Entre as tr s tradi es cer micas da Idade Recente do Ferro definidas por aquele autor, interessa-nos especialmente a de Luangwa, que se estende pelo Distrito de Tete, ao norte do Zambeze. uma tradi o unificada, tanto em formato como em decora o, com pequenas varia es regionais, espalhada por vasta rea e da exclusiva responsabilidade feminina. As data es de maior confian a apontam o in cio do presente mil nio. Tudo indica que est associada a um substancial movimento populacional, envolvendo indiv duos de ambos os sexos. Nada revela que ap s aquela data tenha ocorrido qualquer advento maci o de novos emigrantes. Parece prov vel que as migra es ulteriores tradicionalmente atribu das a povos inteiros, se hajam, em boa verdade, restringido a um n mero relativamente reduzido de aristocratas oriundos dos estados centralizados que se formaram no Sul do actual Zaire, e que conseguiram impor-se aos autoctones constituindo unidades pol ticas mais 8.