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A teoria do conhecimento de Kant: o idealismo transcendental

Cad. Cat. Ens. F s., v. 19, n mero especial: p. 28-51, mar. 2002. 28 A teoria DO conhecimento DE KANT: O IDE-ALISMO transcendental Fernando Lang da Silveira Instituto de F sica UFRGS Porto Alegre RS Duas coisas sempre me enchem a alma de crescente admira o e respeito, quanto mais intensa e freq entemente o pensamento delas se ocupa: o c u estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim. Immanuel Kant Resumo A teoria do conhecimento de Kant a filosofia transcendental ou idea-lismo transcendental teve como objetivo justificar a possibilidade do conhecimento cient fico do s culo XVIII. Ela partiu da constata o de que nem o empirismo brit nico, nem o racionalismo continental explica-vam satisfatoriamente a ci ncia. Kant mostrou que apesar de o conheci-mento se fundamentar na experi ncia, esta nunca se d de maneira neu-tra, pois a ela s o impostas as formas a priori da sensibilidade e do en-tendimento, caracter sticas da cogni o humana.

A teoria do conhecimento de Kant a filosofia transcendental ou idea-lismo transcendental teve como objetivo justificar a possibilidade do conhecimento científico do século XVIII. Ela partiu da constatação de que nem o empirismo britânico, nem o racionalismo continental explica-vam satisfatoriamente a ciência.

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1 Cad. Cat. Ens. F s., v. 19, n mero especial: p. 28-51, mar. 2002. 28 A teoria DO conhecimento DE KANT: O IDE-ALISMO transcendental Fernando Lang da Silveira Instituto de F sica UFRGS Porto Alegre RS Duas coisas sempre me enchem a alma de crescente admira o e respeito, quanto mais intensa e freq entemente o pensamento delas se ocupa: o c u estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim. Immanuel Kant Resumo A teoria do conhecimento de Kant a filosofia transcendental ou idea-lismo transcendental teve como objetivo justificar a possibilidade do conhecimento cient fico do s culo XVIII. Ela partiu da constata o de que nem o empirismo brit nico, nem o racionalismo continental explica-vam satisfatoriamente a ci ncia. Kant mostrou que apesar de o conheci-mento se fundamentar na experi ncia, esta nunca se d de maneira neu-tra, pois a ela s o impostas as formas a priori da sensibilidade e do en-tendimento, caracter sticas da cogni o humana.

2 Palavras-Chave: Filosofia da Ci ncia; Epistemologia de Kant; idealis-mo transcendental , empirismo-racionalismo. Abstract Kant s theory of knowledge ( transcendental philosophy or transcendental idealism) had as its aim to justify the possibility of scientific knowledge in the 17th and 18th centuries. It began with the demonstration that neither British empiricism nor continental rationalism gave a satisfactory expla-nation of science. Kant showed that, in spite of knowledge being based on experience, this never occurs in a neutral way, since the a priori forms of sensibility and understanding, characteristic of human cognition, are im-posed upon it. Lang da Silveira, F. 29 Keywords: Philosophy of Science; Kant s epistemology; transcendental idealism; empiricism-rationalism. I. Introdu o Immanuel Kant (1724 1804) reputado como o maior fil sofo ap s os antigos gregos.

3 Nasceu em K nigsberg, Pr ssia Oriental, como filho de um artes o humilde; estudou no Col gio Fridericianum e na Universidade de K nigsberg, na qual se tornou professor catedr tico. N o foi casado, n o teve filhos e nunca saiu da sua cidade natal. Levou uma vida extremamente met dica; conta-se que os habitantes de sua cidade acertavam os seus rel gios quando o viam sair para pas-sear s 3 h e 30 min da tarde. Sua reflex o filos fica foi muito abrangente pois "todo interesse de minha raz o (tanto o especulativo quanto o pr tico) concentra-se nas tr s seguintes perguntas: 1. Que posso saber? 2. Que devo fazer? 3. Que me dado esperar?" (Kant, 1988, p. 8331. Grifo no original) O objetivo do trabalho apresentar sucintamente a resposta kantiana primeira dessas tr s perguntas. A parte mais importante da obra de Kant, as publi-ca es do chamado per odo cr tico, somente aconteceram quando ele j tinha 57 anos.

4 A sua teoria do conhecimento ou, como se diria em termos atuais, a sua epistemologia aparece j na primeira obra cr tica: Cr tica da raz o pura (1781). Duas respostas antag nicas quest o da origem e da possibilidade do co-nhecimento existiam desde os antigos gregos: o racionalismo e o empirismo. Na poca de Kant o racionalismo dominava no continente (Fran a, Alemanha, ..); na ilha brit nica, o empirismo era hegem nico. Como exporemos a seguir, para o fil sofo na sua fase cr tica, as duas concep es eram insuficientes e problem ticas. O seu esfor o epistemol gico pretendeu dar conta da ci ncia da poca, explicando como foi poss vel a produ o cient fica, em especial, a Geometria Euclidiana e a Mec nica Newtoniana. II. O racionalismo O racionalismo a "posi o epistemol gica que v no pensa-mento, na raz o, a fonte principal do conhecimento " (Hessen, 1 A Cr tica da raz o pura de Os Pensadores apresenta tamb m a pagina o da segunda edi o da obra original de Kant, datada de 1787.)

5 Utilizaremos esta numera o em todas as refer ncias. Cad. Cat. Ens. F s., v. 19, n mero especial: p. 28-51, mar. 2002. 30 1987, p. 60); a experi ncia externa ou sens vel2 secund ria, podendo at ser prejudicial ao conhecimento3. "Em sentido es-trito, (o racionalismo o) conjunto das filosofias que sustentam que basta o pensamento puro, tanto para a ci ncia formal, como para a ci ncia f tica" (Bunge, 1986; p. 165). Plat o (428/7 348/7 ) argumentava que o Mundo Sens vel (o mundo percebido pelos cinco sentidos) encontrava-se em cont nua altera o e mudan a; como o verdadeiro saber tem as caracter sticas da necessidade l gica e da validade universal, n o se pode procur -lo no Mundo Sens vel. Para Plat o existe um se-gundo mundo Mundo das Id ias ; este tem realidade independente do homem, existe objetivamente, fora de n s, apesar de ser imaterial.

6 Os objetos do Mundo Sens vel s o c pias distorcidas das Id ias; por exemplo, um corpo pode ter a for-ma aproximada de um tri ngulo ret ngulo, mas nunca ser verdadeiramente um Tri ngulo Ret ngulo. Entretanto, n s conhecemos o Tri ngulo Ret ngulo e sabe-mos tamb m que a soma dos quadrados dos catetos igual ao quadrado da hipote-nusa4. Os conceitos ticos e est ticos, como de Justi a, de Virtude e de Beleza, tamb m s o objetos do Mundo das Id ias. Mas de que maneira poss vel ter aces-so a este mundo? Plat o respondeu com a teoria da anamnese ou teoria da recorda o: a alma participou do Mundo das Id ias em uma exist ncia pr -terrena, contemplan-do aquele mundo; depois encarnou ( teoria da reencarna o) como um membro da esp cie humana. Mas a alma traz como id ias inatas os objetos imateriais daquele mundo. Desta maneira, para Plat o conhecer recordar.

7 Ren Descartes (1596 1650) o fundador do racionalismo moderno; convicto de que a raz o era capaz de chegar ao conhecimento da realidade de 2 Usualmente quando falamos em experi ncia, estamos nos referindo a aquilo que tem origem nos rg os dos sentidos, na intui o sens vel: a experi ncia externa. No jarg o filos fico h ainda outro tipo de experi ncia: a interna que se d pela intui o psicol gica (Durozoi e Roussel, 1993). Daqui para frente utilizaremos a palavra experi ncia no sentido usual do termo. 3 Os racionalistas dogm ticos desqualificam completamente a percep o, o observado, o experimentado, a intui o sens vel como algo importante para o conhecimento . 4 O conhecimento matem tico, especialmente a geometria, serviu como modelo para Plat o e os demais racionalistas; nessa concep o o pensamento impera absolutamente indepen-dente de toda a experi ncia, constituindo um conhecimento conceptual e dedutivo.

8 Com base em alguns conceitos e axiomas, todo o resto deduzido. N o de se admirar que diversos racionalistas, como Descartes (1596 1650) e Leibniz (1646 1716), foram tamb m matem ticos. Lang da Silveira, F. 31 modo semelhante ao conhecimento matem tico isto , por dedu o a partir de princ pios institu dos de maneira independente da experi ncia , retomou a teoria das id ias inatas. Afirmou que as id ias claras e distintas, descobertas em nossa mente atrav s da d vida met dica, s o verdadeiras, pois Deus n o daria ao homem uma raz o que o enganasse sistematicamente. Por volta de 1630, seguindo o seu projeto racionalista, Descartes produ-ziu uma F sica (Mec nica Cartesiana). A partir do pressuposto de que o Ser Perfei-to que criou todos os corpos e lhes imprimiu movimento, impondo-lhes que o movimento fosse conservado, chegou Descartes ao Princ pio da Conserva o do Movimento Total no mundo f sico; se assim n o fosse, o Universo pararia, reve-lando uma imperfei o divina.

9 Enunciou o Princ pio da In rcia5; afirmou que os corpos somente podem interagir por contato e negou a possibilidade de v cuo; deduziu que o movimento deve ser constitu do por um rearranjo c clico de corpos, isto , que um n mero finito de corpos podem alterar as suas posi es, sem criar v cuo, caso apenas se movam ao longo de uma malha fechada ( teoria dos v rtices ou turbilh es). O peso dos corpos era conseq ncia da a o por contato6 da cor-rente de mat ria dirigida ao centro do v rtice associado ao planeta; os planetas moviam-se no v rtice solar. A Mec nica Cartesiana antecedeu a Mec nica Newtoniana e foi influente tanto na Fran a, quanto na Inglaterra at bem depois da morte de Descartes. Isaac Newton (1642 1727), inicialmente cartesiano, acabou criticando o racionalismo e a F sica de Descartes, em especial a teoria dos v rtices.

10 A epistemologia newto-niana foi o empirismo (ver a pr xima se o) e, como bem se sabe, Newton, com o objetivo de explicar o movimento dos corpos celestes, formulou7 a Lei da Gravita- 5 Descartes enunciou tal princ pio de uma maneira muito peculiar, formulando-o em duas partes. A primeira vers o de Newton deste princ pio reproduziu a forma bipartida, eviden-ciando a influ ncia cartesiana: 1 Se uma quantidade come a a se mover, n o alcan ar jamais o repouso, a menos que seja impedida por uma causa externa; 2 Uma quantidade sempre continuar a se mover sobre a mesma linha reta (n o mudando nem a determina o, nem a celeridade de seu movimento) a menos que uma causa externa a desvie (Newton apud Casini, 1995, p. 55). 6 Descartes n o admitia a possibilidade de uma a o dist ncia mas t o somente por conta-to. Os cartesianos combateram a Mec nica Newtoniana, especialmente a Lei da Gravita o Universal, por considerarem a a o dist ncia um "monstro metaf sico".


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