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1 O Programa de Medicina do Sono: Uma Tecnologia de Gest o Preventiva Autoria: Marcela Rocha Haase Uhlig, Marilene Olivier, Simone da Costa Fernandes Behr, Eduarda De Biase Ferrari Gomes RESUMO. O transporte coletivo um dos meios mais utilizados pelo ser humano para seu deslocamento, no entanto, o profissional inserido nesse micro-local de trabalho nem sempre recebeu os cuidados necess rios para ter uma boa Qualidade de Vida e, conseq entemente, boa sa de f sica e emocional. preciso levar em considera o que o trabalho do motorista . extenuante, sujeito a press es internas e externas que podem interferir no seu estado psicofisiol gico, causando, dentre outros, a ins nia.
2 Infelizmente as demandas do mercado ainda obrigam o ser humano a se sujeitar a hor rios de trabalhos desgastantes e, atualmente, os dist rbios do sono s o considerados causa importante de acidentes envolvendo nibus rodovi rios. Em raz o disso, uma grande empresa de transportes coletivos do Esp rito Santo implantou, desde o ano de 2000, o Programa de Medicina do Sono com o objetivo de prevenir os acidentes provocados por fadiga e sonol ncia. Seus resultados mostram que, dos acidentes com os transportes coletivos interestaduais, nenhum teve como causa o motorista, nem falha mec nica do nibus. Eles foram causados por terceiros.
3 A metodologia delineou-se pela abordagem qualitativa, numa postura cartogr fica onde a coleta de dados n o se limitou . realiza o de entrevistas com os motoristas e seus familiares, mas sobretudo na leitura do contexto e das falas com o corpo vibr til. Buscou-se apreender a alteridade no campo do trabalho dos motoristas e de seus familiares, por meio das for as vivas que nos afetam e permitem que aflorem as sensa es. Como resultado do olhar do olho-do-vis vel percebeu-se que o Programa de Medicina do Sono est sendo capaz de atender s expectativas do ambiente organizacional. Tendo iniciado suas atividades como centro de custo hoje.
4 Considerado um investimento com alta taxa de retorno. Quando se faz a leitura do corpo vibr til pode-se perceber algumas linhas de fuga que merecem destaque, como a rela o entre os motoristas e o m dico respons vel pelo Programa , o territ rio calcificado dos turnos de trabalho e os novos territ rios das rela es familiares. preciso registrar ainda que parece haver uma acomoda o em rela o profiss o e aos hor rios de trabalho, dada a expressividade da empresa em n vel nacional e garantia de um posto laboral em mercado de trabalho competitivo. Ao final, percebeu-se que o motorista e sua fam lia sentem-se gratificados pela exist ncia do Programa entronizando seu idealizador e a empresa por fazerem compara es com outras organiza es nas quais trabalharam anteriormente e por sentirem as melhorias tanto no ambiente de trabalho quanto junto a sua fam lia.
5 1. 1. INTRODU O. No contexto da p s-modernidade as empresas se defrontam com v rios desafios para permanecer no mercado, sendo pressionadas a apresentar resultados por meio da otimiza o de recursos. Tais mecanismos constituem um territ rio que apresenta uma linha de resist ncia t nue, dentro de um discurso paradoxal, porque ainda existe a cren a e uma vis o de curto prazo, de que atender s necessidades dos empregados far com que os custos aumentem e os lucros diminuam. Trata-se da inser o das organiza es nos territ rios criados pela cultura taylorista-fordista onde o global engessa o processo de desterritorializa o do institu do e castra novos processos de conhecimento e cria o que n o tenham como meio o capitalismo cognitivo e como objeto os retornos para os stakeholders.
6 No entanto, algumas organiza es come am a perceber que n o propiciar tratamento a seus funcion rios pode se transformar num pesadelo gerencial. Tais percep es n o nasceram da pr tica do humanismo ou dos processos de alteridade, mas do confronto de estat sticas que mostram custos muito maiores quando s o deixados margem do processo. Alguns gestores j perceberam que existe um certo jogo de for as e movimento em termos do dual custo m nimo-lucro m ximo e o envolvimento do ser humano. Assim, no caso dos transportes coletivos, cumprir apenas a legisla o brasileira (Consolida o das Leis do Trabalho) e as normas de Medicina e seguran a no trabalho n o se mostrou suficiente para a redu o dos acidentes com transporte coletivo terrestre interestadual.
7 Uma grande empresa do Estado do Esp rito Santo implementou, a partir de 2000, o Programa de Medicina do Sono, voltado para a preven o de acidentes e qualidade de vida dos motoristas de nibus. A profiss o de motorista de nibus extenuante, na qual n o s a sua sa de colocada em risco, como tamb m a seguran a dos passageiros que s o por ele conduzidos. De acordo com o Minist rio do Trabalho e Emprego (2002), de modo geral, os motoristas atuam sob supervis o, trabalham em ve culos de grande porte, em hor rios irregulares, em sistemas de rod zio e sob press o de cumprimento de hor rio, sendo essa a realidade observada.
8 O que se verifica que o desempenho da profiss o pode vir a promover um desajuste na vida pessoal, assim como condicionar seus h bitos alimentares e hor rios de descanso de forma disfuncional. Transtornos do sono, problemas ergon micos, estresse, dist rbios osteomusculares (DORT), dist rbios gastrointestinais, vis o irritada, problemas respirat rios e auditivos s o algumas das repercuss es sobre seu organismo. O tr nsito tamb m um fator inerente a esse quadro destacando-se as condi es clim ticas, a m conserva o das rodovias do Brasil, a inadequada manuten o dos ve culos e as condi es do ser humano (preocupa es pessoais e profissionais, m qualidade do sono, problemas com ansiedade e depress o, sedentarismo, obesidade, fadiga, cansa o).
9 Em alguns pa ses europeus os dist rbios do sono j s o tratados h algum tempo, como ferramenta gerencial para redu o de custos, tendo como carro-chefe o discurso em torno da melhoria de qualidade de vida do trabalhador. No Brasil, pouca aten o foi dada ao assunto, principalmente s graves conseq ncias que pode trazer para motoristas de transportes p blicos e caminh es (CANANI; BARRETO, 2001). Diante da situa o descrita, este estudo teve como objetivo fazer um levantamento da hist ria e evolu o do Programa de Medicina do Sono implantado em uma grande empresa de transportes coletivos do Esp rito Santo, buscando-se com o olhar do olho nu, descrever as cenas e os processos e com o olho do corpo vibr til (Rolnik, 2006) a compreens o de suas conseq ncias para a organiza o, para os trabalhadores e familiares nas dimens es f sicas e emocionais n o do que est dito, mas no sentido do n o dito, daquilo que foge, que escapa ao cen rio, ao texto, ao processo, ao que est posto.
10 2. METODOLOGIA. 2. A presente pesquisa nasceu de um survey que foi realizado quanto aos acidentes com nibus interestaduais nos quais as incid ncias com coletivos da Via o guia Branca foram muito baixas em rela o s demais empresas. De in cio suspeitou-se da possibilidade de haver erro nas informa es, mas uma entrevista com a Pol cia Rodovi ria Federal revelou a validade dos dados. Realmente as estat sticas estavam corretas. Partiu-se ent o desse fato para uma entrevista com o diretor da empresa a fim de se verificar se havia algo por tr s desses resultados. Foi nesse momento que se deu o primeiro contato com o Programa de Medicina do Sono, cujo coordenador tamb m se disponibilizou a fazer parte da pesquisa.